Epidemia de solidão

Achava-se sozinha, mais por opção que por desilusão, embora fossem muitas  pros sonhos que trazia no peito. Tudo bem que a grande maioria de suas paixonites eram platônicas, nunca dissera palavra aos pretendidos.
Mas não se sentia solitária. Gostava de estar só. Recusava-se a participar do que intitulara a festa do sabonete, onde as pessoas deslizavam-se velozmente, contra os corpos, de cama em cama. E ainda mais velozmente desapareciam ralo abaixo depois.
Achava que era uma romântica. Um dia acreditara em felizes para sempre. Um dia acreditou em terminar seus dias ao lado de um grande amor. Já não era o caso. Hoje acreditava apenas no hoje. Sem planos para o futuro.
Por outro lado, desejava companhia, carinho e constância. Não queria ser a bola da vez, o prato do dia. Não, ela sempre acreditou em sexo com intimidade. Acontece, que intimidade cria vínculos, cria afeto, e as pessoas estão cada vez menos afetivas e mais objetivas.
Tratam-se como objetos. Homens cada vez mais vaginocefalos (palavras deles) mulheres cada vez mais desesperadas, atiram-se aos seus braços como se gritassem salve-me de minha solidão.
Nenhuma critica. Ela também já estivera em cena numa dessas camas frias de motel. Ela também já estivera desesperada um dia. Sabe lá o que é querer um abraço forte, um beijo, um carinho e ter que fazer sexo pra indiretamente conseguir seu objetivo?
Claro que sabia. Todo mundo sabe! Vai dizer que nunca foi pra a cama por carência? E pior, chegar em casa vazio, sem nenhum pingo de afeto. Dois estranhos que estiveram juntos, ficaram juntos. Ou ficaram separados, serviram de objeto mútuo de prazer.
E nem nisso ela acreditava muito pois prazer pra ela também exigia relaxamento, que pedia cumplicidade , que recomendava intimidade, e isso, dois estranhos não têm. Ela não buscava perfeição, só harmonia de idéias. E não tinha pressa nenhuma.
Embora convicta, não conseguia deixar de sentir uma ponta de desesperança e sentir-se excluída quando recusava mais um convite de um corpo atraente. Era o ultimo dinossauro vivendo na terra, e era uma herbívora, nem um tiranossauro agressivo ela era.
Veredicto: Sozinha a dois, ou sozinha sozinha, preferia a segunda opção, que ao menos lhe deixava livre.
Surpresa foi perceber que muitas outras pessoas pensavam assim, mas se calavam por medo de ficar sós; se submetiam buscando um afeto onde jamais encontrariam.
Um exército de pessoas que perambula de bar em bar, que se joga na balada, se afoga em copos de whisky com energético procurando em outros corpos um calor que extinguiram.
Pacientes terminais de solidonite crônica, uma epidemia dos tempos modernos, onde o egoísmo e o hedonismo imperam. Zumbis que vagam nas casas noturnas, ávidos de sentimentos que os remova do limbo emocional.
Ficou realmente surpresa ao ver que mais e mais pessoas sinalizavam o incômodo de se sentirem sós após relações descartáveis. Sinal dos tempos, pensou. Pode ser que daqui a algum tempo percam o medo de amar e parem de banalizar as relações humanas.
Até lá, ficaria sozinha e em paz.
By Cris Vaccarezza

2 comentários :

Maxwell Soares disse...

Que texto elucidativo, Cris. Que sensibilidade tão próprio na mulheres de alma esclarecida. Fico imaginando como as coisa são tão descartáveis e tão efêmeras. A solidão às vezes requer sacrifício mesmo que seja isso um paradoxo. Estar com alguém e sentir-se só é estado caótico. Parece que não há ponto de fuga. Amei teu texto. Estou a pensar em cada frase que acabei de ler. E voltarei, sim, para relê-la. Um abraço e até...

Cris disse...

Obrigada, Maxwell! Fico feliz em ver um homem lendo. Mais feliz ainda em ver que vc sempre lê! São só reflexões de cenas que acompanho.Como diria Lulu Santos, talvez, eu seja a última romântica rs. Ainda não perdi a minha fé!
Volte sempre! É um prazer ver seus comentários. Despertar o interesse de alguém como vc é uma honra! Abraços

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