Apenas você

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Agora, quando recebi a notícia do acidente, em que morreram dois. Imediatamente lembrei que você estava vindo por essa estrada. E que eu ia, há algum tempo sentar pra te escrever esse texto. Agora, talvez fosse tarde demais.
Corri pro celular e só dava caixa. Odeio quando você faz isso! A incerteza dava dor no estômago. E a ansiedade era tamanha até finalmente ouvir sua voz. Que alívio! Você estava bem! Graças a Deus. Agora posso escrever meu texto em paz, antes que você resolva sumir de repente.
Afinal, você não se cuida, tá com sobrepeso, tem a pressão à beira do absurdo, come demais, e só come besteira. Além do mais, dirige da forma mais segura que um maluco dirigiria. Cola no fundo dos carros, tá sempre acima do permitido, se arrisca na estrada depois de ter bebido um pouco, mas a tranquilidade que eu sinto estando com você é completa.
Você é politicamente incorreto, meio mal educado, fala alto demais, finge ser mal humorado, às vezes chato e adora destruir minha autoestima. Mas quando me vê com um tom de voz abaixo do habitual, larga tudo pra vir me ver. Se percebe que alguma coisa está errada, não sossega até saber porque. Quando tem algum problema, e eu estou preocupada, você tem uma solução que me faz sentir bem, instantaneamente. Você faz tanta zuada, reclama tanto, fala tanta besteira, piora tanto a coisa, que me sinto bem melhor com meu problema. Então cala a boquinha e deixa o problema que eu resolvo!
Quando eu tenho dor, é a sua mão que eu quero segurando a minha. Quando estou sozinha, é você que eu quero me afagando os cabelos. Quando estou triste, é em seu peito que eu quero recostar. Quando estou feliz, é para você que quero ligar. Quando acordo, sinto saudades do tempo em que você estava lá. Quando vou dormir, me esforço pra não ficar muito tempo na cama, pra não dar tempo de sentir saudade do seu mal dormir. Aliás, dormir de conchinha é algo que só aconteceu em minha vida uma vez, e foi com você. Foi só com você que meu sono agitado encontrou paz pra dormir de conchinha.
Tá certo, eu sempre sonhei andar de mãos dadas e você nunca quis. Sempre adorei ficar abraçadinha em lugares sem censura, mas você tem vergonha. Eu sempre adorei café da manhã na cama e você fazia o café, mas nunca curtiu trazer. Eu sempre adorei flores e você se recusava a trazer. Em resumo, você não quer e nunca quis dar o braço a torcer.
Só que você me faz rir no momento certo, me abraça como ninguém, me olha nos olhos e me deixa ver através deles, a sua alma. E foi por sua alma que eu me apaixonei, há 12 anos atrás. Foi pelo menino que parecia um homem, mas tinha apenas 20 anos. Foram quase 10 anos juntos. Isso é muito tempo. Dois anos separados. Isso também é muito tempo. Talvez, tempo demais.
Sabe o que é que eu descobri, depois desses quase dois anos? Que em momento nenhum, você deixou de ser importante. Por isso não surgiu ninguém especial. Eu estava sozinha quando acabou, como ainda estou sozinha agora. Mas talvez solteira, tenha você mais perto de ser, o que me faria feliz. Talvez como amigos, tenhamos sido mais amantes que antes fomos. Mais companheiros. Fruto da incerteza, da inconstância. Tivemos longas conversas, sinceras, honestas que nos fizeram crescer muito.
Você me pergunta todos os dias, se eu te amo! Eu te amo sim, eu respondo, mas a gente não dá certo junto, você sabe! Sabe o que mais? Eu fantasiei os mais belos príncipes encantados, eu admirei as mais perfeitas silhuetas, mas é em você que eu me encontro em paz. É no seu corpo que o meu se encontra pleno.
Na verdade, na verdade, eu queria que fosse você, o homem perfeito pra mim. E agora, diante do susto, da possibilidade de nunca mais, eu resolvi te contar, o que se você não fosse tão turrão, já teria percebido há muito tempo.
By Cris Vaccarezza

Sonho de Valsa (Ou conto de Natal)

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Covardia tem nome? Não? Pode usar o meu! Era medo sim.

Naquele tempo, eu não tinha tanto tempo assim. E tinha um medo enorme de te perder. Por isso nem quis. Menti. Admito, era mentira quando eu falei que não queria mais. Mas era verdade que o momento ideal não era aquele. O mundo girou. A roda gira e agora vem você novamente e me confronta com a cor, a pele, o olho que eu nunca esqueci!
Porque você tinha que voltar com esse papo nesse Natal? Justo nesse Natal? Tinha você que me trazer um sonho de valsa, como o primeiro que me deu e me convidar pra dançar?
A gente não se vê todo dia? ou quase todo dia? Porque justo no Natal? Tô fragilizada! Não é justo!
Porque não poderia continuar disfarçado nos amores que fantasiava ter, nos musos que não passam de inspiração, nas noites insones de calor, nos meus sonhos?
Dizem que não se esquece um grande amor. Dizem que não se esquece...Será? Terá sido mesmo um grande amor de dez ou doze semanas? Tive muitos amores nessa fase, a grande maioria virtual, por que você tinha que se realizar? Quem sabe. Nem quero saber!
Só sei que você é o moreno mais lindo que eu jamais quis (tanto) chamar de meu!
By Cris Vaccarezza

Próxima estação: 2012

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Contagem regressiva. Nesse período é sempre assim. Todo mundo se abraçando, confraternizando, lembrando do próximo, do menos favorecido, lembrando do amigo, secreto ou não, do irmão! Todo ano é assim. Mas esse ano não!
Não que o mundo tenha mudado. Fui eu quem mudou. Não sei se é por conta de o ano terminar em um sábado, não sei por ter esgotado minhas forças esse ano tentando manter inteira a minha fé em Deus (e a mantive, inabalável. Mais forte até). Fato é que não estou muito animada pra esse final de ano.
Lembro que ano passado nesse período, eu estava de malas prontas pra 2011, que contava minhas aventuras e desventuras emocionais em um ano em que me descobri mulher, redescobri a pessoa que hibernava e que queria existir. Lembro que ano passado eu eclodira de larva a borboleta, após um retardo de anos e borboleteando, meio às cegas, perambulava em busca de flores em meio a espinhos.
Agora, às vésperas da virada, ainda me sinto como que no limbo de um Julho, Agosto, Setembro e não na ferveção veranesca de um Dezembro.
Anime-se, faltam apenas alguns dias para terminar esse ano que materializou em meu corpo problemas reais, que me mostrou os riscos, a proximidade das doenças do corpo. Esse ano que feriu, que não cicatrizou, que deixou cicatrizes visíveis. Que me confrontou com a face brava e por vezes injusta da justiça,  que me fez pagar o preço da minha procrastinação.
Esse ano me fez crescer e envelhecer 20 anos em um. Agora talvez eu tenha os 39 que a minha identidade atesta. Agora talvez eu mereça os diversos fios brancos que a fronte ostenta. Acho que até o princípio desse ano, eu tinha apenas 19 anos emocionais.
Vivia um tempo de descoberta, de princípio de independência, tempo de tomar as rédeas de minha vida em minhas mãos. Mas não tinha noção de quem era, ou quem poderia vir a ser. Era uma romântica.
Tudo em nossa vida são possibilidades, escolhas, caminhos, semeaduras. E se descortinam como um leque no momento certo. O futuro convida você pra dançar, mas não anuncia o ritmo. Você não tem o direito de recusar a dança. É levantar e acompanhar. Cada passo, uma decisão, cada sorriso uma escolha, cada rosto uma possibilidade. Ao escolher um caminho, abrimos mão de outro. Certo ou não, só o tempo dirá.
Esse foi um ano que comecei vivendo uma experiência de Alice no país das maravilhas, de viajar pela primeira vez sozinha pra longe, apenas eu e minha filha. Tempo de rirmos juntas, brincarmos juntas, dançarmos juntas, brigarmos juntas e nos tornarmos mais mãe filha, mais gente. A brincadeira terminou já na volta, com uma separação na família que desestruturou tudo. Um terremoto emocional que antes do tempo, desestabilizou o que eu achava que seriam meus dois pilares eternos, sob os quais emocionalmente eu me erguia.
Foi então que aprendi que agora em 2011, eu seria convidada a me erguer em minhas próprias pernas. E que chegara o tempo de começar eu mesma, a dar suporte a esses dois pilares, que com o tempo ameaçavam ruir, cada um em sua base. Seria difícil tentar consertar pilares divergentes. Ainda não consegui, mas eles estão de pé.
Assim 2011 começava a mostrar seu plano de unir três vidas, três mulheres, três gerações e seus conflitos.
Um ano de minimizar problemas que teimavam em chegar sem ser convidados, de aprender a lidar com meus sentimentos, de escrever minha história, de aprender a respeitar meus limites, de desapegar.
Tempo de perceber que ninguém pode ser idealizado, pois ninguém é o ideal. Que o que parece perfeito também pode falhar. Que o novo quebra, que manutenção preventiva nem sempre dá certo, e quando uma coisa tem que dar errado, não adianta, ela dá errado, você que tire lucro da lição; que aprenda a consertar. Descobri que imprevistos acontecem, e por mais que planeje, às vezes é inevitável se ausentar, se desculpar, falhar. Se isso não é usual, as pessoas vão compreender.
Que o jovem adoece, e que os jovens estão adoecendo emocionalmente, cedo demais pros anos que ainda lhe restam. Que quem parece inatingível, também tem seu ponto fraco. E que seu ponto fraco pode fazer o prédio inteiro ruir. Que os brutos também amam. Mesmo que não confessem de jeito nenhum, e com isso percam a beleza das cores, o perfume das flores e o sabor dos frutos.
Que ninguém vai sentir-se mais feliz com suas conquistas, que você mesmo. Que a inveja existe e é uma força destruidora. E que se você não se amar, ninguém vai te amar também de volta. E mais, que nunca, ninguém vai amar mais a você do que ama a si mesmo. Se parecer assim, desconfie. Tem algo de errado com ele. É preciso amar-se para ser amável.
Em 2011 aprendi que amigos vem e vão. São livres. E não importa o quanto você sinta falta deles, se decidirem partir, devemos respeitar sua escolha e continuar amando-os da mesma maneira. Que as interpretações são diversas sobre o mesmo assunto e ninguém está totalmente certo, ou errado. Nada é absoluto. Nem a verdade, cada um tem a sua e a enxerga, na medida que dá conta.
Isso me ensinou Janaína, que daria um capitulo inteiro, tantos foram os aprendizados nesses anos, tantas foram as coisas que nos inspirou a conquistar. Com seu doce ouvir, com seu enérgico falar, com seu riso encantador. Consegue unir as três histórias, as três gerações. Três pontas tão diversas de uma corda e trançar. É mesmo uma grande alma essa Janaína. Estímulo, nos momentos de apatia, freio aos excessos egoísticos, equilíbrio que nos mantém na estrada. Que me fez pegar a estrada, sem medo, viajar e chegar lá, com minhas duas meninas. Eu, sem medos? Quem diria Janaína!
Eis que chegamos aqui, avó, mãe e filha. Três gerações de mulheres, com seus desafios, tristezas, alegrias, aptidões e dificuldades, aprendendo a conviver juntas na medida do possível e a juntas, se proteger das intempéries da vida, fortalecendo-se mutuamente. Dois mil e onze propiciou a cada uma de nós, a oportunidade de vivenciar desafios, de chorar suas lágrimas, e secá-las com sorrisos.
A melhor notícia é esse ano sofrido, está chegando ao fim. E nós, chegamos lá! Não perdemos as esperanças, não sucumbimos. Sobrevivemos!
Que venha 2012, ano par. E traga paz ao que está em conflito, alegria ao que ainda entristece, alento ao que sofre, alimento ao que necessita, saúde ao que padece, discernimento para as horas difíceis e amor, muito amor para dar, vender, distribuir, emprestar, florescer, multiplicar!
Tudo em dobro, tudo aos pares, tudo pra todos!
By Cris Vaccarezza

O que eu queria te dizer...

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Eu queria te dizer alguma coisa, na verdade tanta coisa... Mas acho tão inadequado depois de tudo o que aconteceu, sei lá, parece que foi terminado, antes mesmo de iniciar.
Eu queria te dizer que eu não me apaixonei por você de graça. Não menospreze meu sentimento. Não foi sua forma física que me balançou. Talvez, tenha sido até um pouco culpa da forma física de você me tocar, de fazer seu corpo colar ao meu "sem querer" ou a química talvez... só talvez.
Mas sem dúvida foi sua inteligência que me chamou a atenção, seu jogo de cintura quando tudo parece ter dado errado, seu bom humor desenvolvido a marretadas da vida, seu carisma com o publico, sua habilidade de lidar com gente. Admiro sua inteligência emocional. Isso é paixão?
Foi o seu mistério que me fascinou. Mais do que o que seus lábios contam nos milhões de beijos que distribui abertamente por ai, é o que eles calam que me fascina. É essa sua dor anestesiada com beleza, é esse sentimento represado num sorriso que eu queria ver fluir até sarar. Eu queria sarar você. Queria te deixar em paz, te dar a minha paz. Trocá-lá por um pouco desse carinho que suas mãos agitadas precisam fazer. Seria uma troca justa.
Sei que a maioria das pessoas deve achar ridículo isso. Completamente non sense. Uma mulher madura, platonicamente apaixonada por um cara que jamais passará de uma ilusão ou uma decepção em sua vida, posto que não corresponde. Mas é a ilusão que me apaixona. Em verdade as coisas são tão mecanicamente sórdidas no mundo de hoje. É tanto se dar sem querer, é um tal de pegar, de traçar; deixem que eu me alimente de ilusões.
Olha, eu tenho convites pra um final de semana na praia, pra dois, que comprei pensando em você, num lugar paradisíaco. Convite que nunca vou te fazer, por medo. Você não iria aceitar, por medo.
Não sei que tipo de imagem distorcida as pessoas tem de mim, acho que assusto, de alguma maneira, fato é que as coisas nunca saem como deveriam...
O que eu queria de verdade? Eu queria te perguntar se você quer namorar comigo, nada de compromissos formais, só lealdade, respeito. Fidelidade é opcional. Sabe constância, frequência? Muito beijo na boca, muita paixonite boba, muita besteira sussurrada no ouvido. Algumas noites tórridas, mas isso é secundário. Importante é trocar afeto, cafuné, mão na mão, cheiro no cangote. Só por um fim de semana na praia. Era isso que eu queria...Mas como eu te falei, você não iria aceitar.
O problema é que o tempo está passando. Você está aqui, diante de mim, esperando que eu te diga alguma coisa, já que te chamei... Eu queria -finalmente pronuncio- te desejar um feliz Natal... E um prospero ano novo!
By Cris Vaccarezza

Sobre raposas, rosas e principezinhos

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Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar. 
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez tua rosa tão importante. 
- Foi o tempo que perdi com a minha rosa... repetiu o princepezinho a fim de se lembrar. 
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não deve esquecer. Tu te tornas esternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa... 
- eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar".
(Antoine de Saint-Exupéry - Diálogo entre o Pequeno Príncipe e a raposa)


Estamos na estrada e eu, fone de ouvido conectado, me desloco para longe. Ida e volta, eu só conseguia pensar em estrelas, em raposas, em rosas, em pequenos príncipes de cabelo cor de trigo.
Viajo nos pensamentos, só lembrando da mensagem que recebi ontem; um trecho de "O Pequeno Príncipe" quando ele conhece a raposa, e através dela, o poder do cativar.
A raposa queria ser cativada, apenas para deixar de ser uma entre cem mil raposas iguais e se tornar especial a para o pricipezinho. Ela queria conhecer o som dos seus passos, esperar por ele, criar ritos.. criar laços.
Embora a raposa soubesse que o príncipe já tinha a sua rosa; que a rosa o cativara antes e que ele seria para  sempre dela. Que um dia, bem breve até, ele voltaria pra a sua rosa, ela quis que ele a cativasse. Ainda que soubesse que iria sofrer quando ele partisse. Ainda assim, deixou que ele a cativasse. Quando o príncipe teve que partir para encontrar a sua rosa, a raposa chorou, e ele ficou triste por ela. Mas a ela restavam os campos de trigo dourados, da cor dos cabelos dele para recordar.
Ainda que ele tenha voltado pra a sua rosa, foi a raposa que lhe ensinou a ser cativado e é dela uma das mais célebres frases do livro: "O essencial é invisível aos olhos. Só se enxerga bem com o coração" e "Tu te tornas eternamento responsável por aquilo que cativas".
Ontem me perguntaram o que eu procuro em sites de relacionamento. Não sei! Tenho consciência da busca, mas não o objeto dessa busca. Busco algo que ainda não encontrei, uma pedra rara, um diamante perdido que se destaque da multidão de caras e rostos iguais.
Talvez busque apenas uma raposa como eu, que também queira ser cativada. Acho que é isso que eu busco. To be tamed. Ser cativada. Pra ser especial, e não mais uma raposa qualquer. Quem sabe até, a rosa de alguém.
Alí, no meio da estrada, a noite caía já, e percebi que compreendia a rosa que o principezinho amava. Haviam cativado um ao outro. Compreendia também o princepezinho para quem a sua rosa era única. Mas me identificava mesmo com a raposa, que compreendia todo mundo, e preferiu sentir a dor da perda a não sentir nada. A passar pela vida sem levar bagagem emocional nenhuma.
Não! Prefiro malas entupidas de saudades dos abraços que dei, dos sorrisos que despertei, das lágrimas que rolaram e ainda rolam às vezes. Prefiro essa saudade ao medo de nada sentir.
By Cris Vaccarezza

Em nome do Pai

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Errar é humano. Todo ser humano erra. Dizem que Deus, que é um pai amoroso e bom, permite os erros para que se aprenda com eles. Deus respeita nosso livre arbítrio.
Então lembro do Cristo Jesus, que veio pregar o amor e o perdão às ofensas. Também ele estava repleto de paz quando vieram questioná-lo à respeito da suposta adultera. Que fazer com ela? A lei mandava que fosse apedrejada até a morte. Então Ele pergunta em primeiro lugar, se é possível adulterar sozinha. E em seguida, conhecedor dos rudimentos de consciência de cada um, ele propõe: Quem estiver livre de pecados, que atire a primeira pedra, e tranqüilamente volta a desenhar no chão. Um a um os homens que a julgavam e condenavam foram deixando as pedras no chão e se retiraram.
Jesus ensinou a não julgar pois não somos perfeitos, não conhecemos toda a verdade. Quando conhecermos, ela nos libertará. Então porque seguimos julgando?
Acho que esse é um aprendizado que ainda levaremos muito tempo para aprender. Talvez quando tivermos ciência da nossa ignorância e limitação enquanto seres humanos falíveis também. Ou quando tivermos a verdadeira fé que remove as montanhas pois confia nos desígnios de Deus. Talvez ai estejamos mais distantes do àtomo e mais próximos do arcanjo.
A tolerância do ser humano ainda precisa ser desenvolvida, e é em casos que causam comoção nacional que ela se manifesta. Frente aos erros dos outros.
Há erros difíceis de compreender pois são chocantes, despertam nossa ira e vontade de fazer justiça com as próprias mãos.
É claro que ha erros que não compreendemos porque tão cruéis. Sim, dói. E é nessas horas em que eu procuro trocar o ódio pela oração e peço a Deus que nos dê forças para superar os desafios.
Quando e erro é grande demais, injusto, ou praticado de forma covarde, a revolta canta alto em nosso peito. Então desejamos que o sujeito morra, que ele sofra até o ultimo martírio, que seja punido pelo seu ato, que seja banido da sociedade.
Desejamos que crueldade pior que a que ele praticou lhe seja feita. Se bateu, queremos linxar, se matou, queremos exterminar, se estuprou, queremos torturar. E eu me pergunto: em que somos melhores do que quem praticou o ato, se pretendemos ter a mesma atitude ou pior?
Pra mim, justiça real é a de Deus, mas como não percebemos, não cremos. Somos imediatistas demais.
Acho que só quando se conscientiza do erro, e se arrepende de tê-lo praticado, alguém começa a modificar a postura.
Desejar o mal a quem praticou um ato mal, é ser tão mal quanto ele. No dia em que percebermos que Deus não precisa de auxiliares em suas leis. Talvez nos tornemos pessoas melhores. A paz não é uma dádiva gratuita, é uma conquista diária de cada um de nós.
By Cris Vaccarezza

A roda gira

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Quando a roda girou, quando ele rodou, ela rodou, ficaram frente a frente. A mão dele arrodeou sua cintura, a outra, segurou firme a sua mão. Os olhos estavam fitados e o corpo dele, imprimia ao dela, postura firme, olhar altivo.
Ela era uma menina de grande idade, uma mulher pequena, de olhos negros como eram negros seus cabelos antes de chegarem (sem convite) os fios brancos que a tintura parcialmente escondia.
Ele era atlético, depois de longo período magro. Agora ele tinha o corpo estufado, o peito empinado, que intimidava os seios dela. Comprimia, roçava, provocava. Antes era só um tórax comum. Ele era um homem, embora em certos aspectos, insistisse em se manter um menino.
Quase saindo da faixa preferida de Balzac, ela tinha uma certa jovialidade. Conservava um ar de quem perdera poucas noites na juventude. Ele atualmente perdia noites de mais, não via sentido no sono, se seus sonhos, roubaram, tempos atrás. Ele buscava em vão, a sua cara metade. O sorriso escondia o que seus olhos gritavam. Uma tristeza distante, uma vontade calada. Um não sei quê de saudade.
Ele a achava uma mulher interessante, dona de um mistério que ele não conseguia penetrar, talvez a visse perfeita demais. Ela o queria justo em seus mistérios, queria os defeitos que ele teimava ocultar. Achava que ele era mais do que aquela aparência perfeita queria mostrar. Sabia que fora ferido, se interessava por cuidar. Nunca gostou de pássaros presos, mas se sentia impelida a proteger os mais frágeis, os pássaros feridos. Era advogada das causas impossíveis. Queria muito estar ali quando ele saísse do limbo. Achava que poderia ser seu beijo que o faria despertar.
Ele só queria encontrar a felicidade, a estabilidade, a tranquilidade que seu coração perdera tempos atrás.
No girar da roda, giraram também os dois, naquele momento eram somente os dois, feitos em um pela roda, a dançar.
Ele sorriu, ela sorriu, eles dançaram. Ele jamais imaginaria que ela o protegeria. Ela jamais sonhara que ele não a compreenderia. Eles se viam idealizados demais. A dança foi bela. Foi breve a dança. E no curto espaço de uma canção, eles se encontraram e se perderam um do outro.
A roda girou novamente, os corpos se afastaram por fim, as mãos não se davam mais. A roda é assim. Uns vêm outros vão, o ciclo se fecha e todos trocam de mãos.
Acabou, só no próximo giro.
By Cris Vaccarezza

Dentro do contexto

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"Você escreve como Clarisse", ele disse um dia num dos nossos longos papos cabeça. Tolice, Clarice era um ícone, um gênio, sou apenas mais uma alma inconformada com a orgia que fazem do amor! "Não" ele disse" falo que você escreve em terceira pessoa, como se estivesse ausente da cena" São seus olhos de amigo que me veem assim. É que você me vê com seu coração. E seu coração é doce, vê tudo aumentado. É meu jeito prolixo de dizer obrigada.
Mas com sua doçura de amigo, ele sabia compreendê-la, embora as vezes não entendesse suas atitudes apaixonadas. E nas tardes em que podiam conversar, trocavam a experiencia da maturidade pela juventude. Décadas de diferença, mas amigos não tem idade.
- "Pra que isso?"  às vezes ele dizia inconformado com seu jeito apaixonado de ser. "Você não está vendo que esse homem não te ama?" Eu sei, respondia, mas não me importa. Importa que eu quero por nós dois. E sabe do que mais, ele nem precisa saber disso! Ele nem precisa saber que eu fugiria com ele pra Nepal. Que eu faria um loucura por ele, que eu me entregaria de corpo e alma sem exigir nem mesmo exclusividade!" "Que absurdo! Falta de amor próprio!"
Pelo contrário, amigo, é excesso de amor. Talvez não o próprio. É vontade de distribuir, de doar emoções nesse mundo cinza que me acha estúpida, que acha idiota meu modo escrachado de sorrir sem vergonha, meu jeito infantilizado de ser feliz. Esse mundo que julga sem me conhecer, esse mundo que tenta diminuir o tamanho do meu amor, atribuindo a ele pechas de subterfúgios. Pensam eles, ela deve estar fazendo isso por carência, quer comprar o outro, seduzir e depois abandonar. Foram tantos os impropérios, amigo, que já ouvi nesse caminho, foi tanta topada nas palavras duras de quem a gente só queria compreensão, que meu pé calejou. Ficou duro! Mas nunca que eu vou deixar de caminhar! Minha alma continua leve, sem rancores, sem tristezas, só amor pra dar!
Eu sigo! Se eu quero, ele nem precisa saber. Eu mando anonimamente pra ele. Era só um presente, e eu mandei. Só queria que ele sorrisse. Sei que ele gosta de espelho. Que custa enviar um espelho pra ele se olhar? Se ele vai me ver por trás do espelho? Sei lá, amigo... problema dele!
By Cris Vaccarezza

Pelos, pra que os quero?

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Pelo que tenho visto, e me perdoem o trocadilho infame, a questão de pelos, ter ou não tê-los é hoje assunto recorrente e até motivo de discussão entre as gerações.
Que a estética vem mudando muito dos anos 70 pra cá, já se sabe. Naquela época, o auge eram os hippies, no stress, paz e amor, filosofia naturalista, onde os pelos não só eram tolerados, como liberados e desejáveis. Em ambos os sexos. Coisas da era de aquários que viria por aí. Quem assistiu hair não me deixa mentir. Do black power às virilhas e axilas, tudo era repleto de pelos.
Nos anos 80, a era New wave, multicolorida, trazia o glitter, o brilho e transparência. Trouxe também a política de pelo zero e as mulheres passaram a ficar lisinhas, lá pelos 90, aderiram à moda do Brazilian Wax. E hoje a política do pelo zero é a preferida das mulheres.
A questão é que atualmente, com o aumento da vaidade entre os homens, o início da depilação entre os esportistas, o advento dos metrossexuais, e a ausência natural de pelos que ocorre em alguns homens a moda generalizou-se. Homens agora se depilam quase que inteiramente.
Percebo que entre os adolescentes, mais que modismo. Isso é uma estética desejável. Mas eu, particularmente não curto muito homem liso. Acho que um tórax cabeludo tem seu lugar. Não precisa ser mata serrada, pode ser aparado, mas  liso também, não tem muita graça, principalmente quando naturalmente, os pelos tem um desenho harmônico, acho sensual.
As meninas me apedrejariam, mas ainda acho que gosto é o mais democrático dos resquícios da alma e defendo meu direito à preferir os mais peludinhos.
Pra mim, pior que um homem peludo é pelos por nascer, espetando. Ou faz depilação com cera, ou deixa natural. Em minha opinião, mulheres gostam de coisa macia, não lisa.
E os homens, o que preferem, com pelos, muito pelo, pouco pelo, pelo zero?
By Cris Vaccarezza

Em construção

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Olhava agora a vida de outro ângulo. E pensava como uma coisa ruim pode mudar toda a sua história.
Ela o tinha perdido, ou ele a tinha perdido, sei lá! Perderam- se os dois. Embora ainda houvesse o carinho, o respeito, e porque não dizer, o amor, já não eram um casal.
Embora vez por outra um fugisse para os braços do outro. Embora às vezes ainda se abrigassem do frio e da solidão sob o mesmo edredom, já não eram um casal. Ele sabia, ela sabia.
O que ninguem sabia, era do dia de amanhã. Certeza, certeza, não tinham, mas intuíam que nunca mais seria igual.
Sempre se viam. Quando um falava, o outro ouvia. Quando um recordava, o outro também se comovia: Nunca mais os domingos de manhã, nunca mais a emoção da primeira viagem de avião, nunca mais férias juntos na casa de praia, nunca mais a solidariedade de um, nos perrengues do outro. Nunca mais saber-se do outro... Isso doía um pouco ainda. Doía um pouco já, o nunca mais.
Separação é uma pequena morte. Ainda mais quando ainda resta amor, ou carinho, ou respeito, ou desejo, mas não há mais vontade.
Apesar de tudo isso, quase dois anos, sozinhos. E nossa, como estavam sozinhos... Ficaram, estiveram, mas não compartilharam, ainda se reservavam um para o outro. Continuavam sozinhos.
Quem os viu, quem os vê. Ele, o eterno playboy, o Peter Pan que se recusava a crescer. Ela, o patinho feio, a nerd workaholic que só pensava em trabalhar...quanta diferença!
Ele se firmou profissionalmente, ela aprendeu a dançar. Ele passou a interagir no mundo dos solteiros, virou o novo solteiro disponível. Ela aprendeu a dançar. Ele exerceu sua independência , aguçou a responsabilidade, a mediação, a tolerância. Ela aprendeu a dançar.
Ele se tornou o homem que sempre quis, ela, deixou a senhora sisuda de lado pra ser apenas a adolescente que sempre quis.
Como ninguém passa em nossa vida sem que deixe de herança um pouco de sí, e leve consigo um pouco do outro, ela era agora um pouco ele, e ele se via um pouco nela.
Dizer que o casamento deles não deu certo, seria um blasfêmia. Deu certo sim, apenas passou...
By Cris Vaccarezza

Testamento

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Deixo aqui, registrado e por escrito em testamento, distribuídas as coisa que realmente me importam.
Amigos, no dia em que eu cerrar meus olhos de carne, e minha alma despertar, peço que não aprisionem meu corpo em uma lápide escura.
Dele doem o que puderem doar, pra que a carne seja útil à carne, e o espírito, livre pra voar.
De que me servirão os olhos, na escuridão de um túmulo? Deixe que outros possam enxergar. De que me servirão pulmões, sem o ar para respirar? Deixem que outro possa de oxigênio seu corpo alimentar. De que me servirão um par de rins, se não haverá nada para fitar. Deixem que eles libertem alguém do cativeiro da diálise.
Doem tudo. Tudo o que puder ser aproveitado. Doem principalmente esse coração que se acostumou a tanto amor, a tanto amar.
Deixem que outros sintam que embora haja alivio e satisfação em receber, há uma alegria muito maior em doar. Se me querem por perto, não me aprisionem, não guardem, compartilhem, multipliquem!
Quero uma despedida de festa, pois a vida é apenas uma passagem. Um ato, no encenar da existência. Que tenha música, alegria e um violão, se alguém puder tocar. Toquem Legião Urbana, Marisa Monte, toquem musicas de amor,toquem músicas de paz. Eu estarei em paz! Não lamentem, não retruquem. Estamos nas mãos de Deus, e por isso, em boas mãos.
Depois, queimem o que sobrar, e joguem as cinzas no mar. Partícula por partícula, que a matéria retorne à origem da vida, à água, à renovação.
Quando eu me for, vou leve, com a sensação do dever cumprido, e a alegria de quem inicia uma nova jornada!
Pra vocês, companheiros de estrada, deixo a alegria dos momentos vividos. Pra cada um, deixo um sorriso, um abraço caloroso desses que dei e recebi. E levo a certeza de ter valido a pena!
By Cris Vaccarezza
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