Alheia

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Quem seguisse até o fim da rua da saudade, dobrando à direita na esquina do tempo, poderia vê-la sempre lá, no hall da casa 14, sentada sozinha, escrevendo ou lendo alguma coisa. O corpo ainda na terra, como mandava o figurino, mas a cabeça, ah! A cabeça dispersa em sonhos pelo universo, muito, muito longe dali.
Sentava-se ali sozinha e nada dizia a qualquer transeunte, apenas lia, lia... E escrevia, talvez suas memórias, talvez sua alegria.
Escrevia para que recordasse, apesar das mãos enrugadas, da face sulcada, das alegrias da mocidade já vivida. Escrevia para recordar. Quem sabe, reescrevesse para corrigir o fio da reticência em algum parágrafo torto, ou alguma reminiscencia de seu passado.
Só mesmo quem fizesse muita questão de percebê-la, a divisaria da paisagem. Sentia-se tão bem por ali, que mimetizara-se. Mas não era mal educada, alheia apenas. Se a cumprimentassem, ela responderia, talvez um menear de cabeça, quem sabe um breve levantar de mão. Um cumprimento vago, nada mais. Nunca  mais os efusivos bye-byes de outrora, nunca mais os olhos de profunda ansiedade, aguardando o trem na estação. Agora, aguardava apenas o trem de ir embora.
A vida lhe ensinara que os caminhos não seguem necessariamente por onde esperamos. A vida lhe ensinou a resignar-se. Resignada, passou a escrever sua história à sua maneira, deixou de dar satisfação a quem não a compreendia, ou de dar bom dias formais, apenas por dar. parou de perguntar como estavam. Ninguém haveria de querer saber de verdade. Mera formalidade social. Odiava, disso tinha certeza, as banais formalidades sociais.
E assim vivia, alheia. Com sua cara amarrada e seu sorriso interno, sem notar o barulho dos passantes, sem ligar a mínima para o mundo lá fora, o mundo, que em verdade, nunca lhe pertencera, e ao qual, há muito deixara de pertencer.
Por Cris Vaccarezza

O rei do Lulu

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Em tempos de Lulu, quem tem muitas qualificações, é rei... Ou não! Vale a pena ser um cara estourado nessas redes sociais?
Tenho observado com atenção o novo burburinho do momento, o Lulu. Trata-se de um aplicativo para smartphones em que as mulheres tem a opção de qualificar positiva ou negativamente os rapazes de sua rede social, avaliando o desempenho do mancebo em aspectos como aparência, compromisso, desempenho sexual, entre outros. Note bem, eu disse qualificá-los, sem necessariamente ter que ser quantificado por isso, já que tudo isso, é feito anonimamente. Elas tem também a opção de descrevê-los através de adjetivos, denominados pelo aplicativo, de hashtags. Podem ser usadas descrições do tipo: #mãosfortes, #semprecheiroso, ou pejorativas como #filhodamamãe ou #fazoserviçoesome. 
Evidentemente, um aplicativo assim, rapidamente "bombaria" entre os jovens e adolescentes. Mas surpreendentemente, tem feito sucesso também, nas outras faixas etárias e entre as mulheres mais maduras. E as críticas à iniciativa, não tardaram a aparecer: Um absurdo! Uma invasão de privacidade! Uma vingança escandalosa!
Eu particularmente, acho um exagero. Dos críticos, é claro! Deixa falar! Creio que finalmente, as mulheres, sempre tão desunidas, tomaram pé da situação e resolveram trocar informações. Trocar figurinha. 
Um absurdo? Por que? Os homens sempre fizeram isso, de forma escancarada ou à boca pequena, as mulheres, peguetes, ficantes, sempre foram assunto nas rodas de amigos, ou nas sociais, nas baladas: "Fulana, já peguei!" "Ciclana, é uma periguete!" "Ah, ali eu já fui. Não vá não, que é pra casar." Doçuras do gênero... E ninguém nunca apedrejou as rodas de amigos. Sempre existiram os famosos clubes do bolinha, onde mulher só entra como assunto. Pior ainda, sempre houve a violência de divulgar a intimidade, fotos  e vídeos de suas parceiras na internet, após o fim do relacionamento. Isso não é ser vingativo? Por que agora, as críticas ao Lulú?
Hipocrisia claro, somada a um medo de exposição. Afinal, aos homens, a sociedade tudo permite. Eles sempre puderam, em nome do ego ou do status social, difamar as ficantes, ou ex-namoradas, depois de iludí-las, de pegar geral, sumir, e contar isso em mesa de bar, pros amigos e pra quem mais quiser ouvir. Afinal, "de que adianta pegar, se não puder contar, não é?". 
O silêncio sempre beneficia ao mais forte, e frequentemente, ao que está errado. Mas a sociedade é machista. Para os homens, mais vale a quantidade que a qualidade do serviço, quanto mais casos, melhor. Para as mulheres, ocorre o contrário. Como é que mulheres poderiam contar que já pegaram e o que acharam, se não anonimamente? Pois é, agora podem. Qualificar o quantificado, esclarecer que nem sempre o tanto é tão bom... A grande sacada, é que agora isso é aberto, num aplicativo, para quem quiser acessar.
É, elas conseguiram! Pioraram as coisas! Jogaram a "caquinha" alheia num daqueles cata-ventos eólicos. Caiu na net! Agora, está menos desigual, o cafa pode aprontar o que ele quiser, depois, ganha nota baixa no Lulu. Se se sentir ofendido, ele pode reclamar, exigir a remoção do perfil, ou pode ainda ler e usar as informações para mudar algo (esperança vã...).
Talvez ainda faltem nas hashtags, opções como #casadoesafado, #homemplacebo, #culturalmentevazio, #propagandaenganosa, #muitobarulhopornada ou um elogioso #ficaadica, #superrecomendo, #inteligente, #generoso, #criativo, #proativo, etc, no entanto, a princípio, o Lulú é uma iniciativa válida. 
Daqui a pouco, algum revanchista, aborrecido com a má fama de cafa recém adquirida, vai criar um outro aplicativo que permita igualmente, qualificar mulheres. É sempre assim, os homens inventam a moda, as mulheres reagem a ela, absorvendo-a e piorando. Quando eles percebem o estrago, correm atrás do prejuízo. E o mundo vem mudando desde sempre. Foi assim com o trabalho, o dinheiro, o álcool, o cigarro, com a liberdade sexual, e agora, com a liberdade de qualificar aqueles com quem se relacionou. Tempos modernos... Você pode aprontar, mas isso não vai mais ficar escondido sob a capa da hipocrisia social. Agora, vestidas de anonimato, as mulheres popularizaram o clube da Luluzinha, nos mesmos moldes do antigo clube do bolinha, só que pior, globalizado, pra quantas Luluzinhas quiserem participar. Pode entrar e qualificar à vontade. Só não vale mentir. Mas com a liberdade de que alguns homens fazem uso de maneira errada, creio que as mulheres nem vão precisar se dar ao trabalho, só dizer a verdade, já é o suficiente para inadvertidamente, detonar muita gente.
(Por Cris Vaccarrrezza)

O silêncio dos inocentes e a farra dos lobos em pele de cordeiro

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Em busca de viver de acordo com a normalidade vigente, seguimos como plácido rebanho de ovelhas. É aí que o silêncio dos inocentes alimenta os lobos. Principalmente os lobos em pele de cordeiro. 
"O pior cego é aquele que não quer ver."
"A decepção dói mais pois sempre vem de alguém de quem não esperávamos."



Algumas dessas frases chavões que ouvimos por ai, parecem não fazer o menor sentido. Mas não é verdade, descobri que os chavões ainda abrem sim algumas portas. Especialmente na mente dos que tem a coragem de destrancar pesadas portas e arejar velhos quartos repletos de teias de aranha mentais e pensamentos empoeirados. Ideias, repetidas exaustivamente, tornam-se pétreas. Quase férreas. 
Os lobos, travestidos de cordeiros, aqueles que em vez de caçar, em vez de assumir seu ego predador, preferem se valer da turba plácida do rebanho, para disfarçadamente, devorar as ovelhas. Esse tipo de lobo, se aproveita do silêncio imposto pela rotina do rebanho, para semear ervas daninhas. Sempre que pode, deixa uma mentira hipnótica adocicada para um carneirinho comer, deixa uma frase venenosa sobre um amigo para outro carneirinho, planta uma ação distorcida para outra ovelhinha mais adiante e vai semeando... Plantando dúvida e discórdia entre o rebanho. Criando desunião e finalmente, o caos. 
Assim, rompe o laço, quebra a corrente e de repente, algum membro mais fraco, desgarrado, é considerado inútil e fica pra trás. O rebanho lhe vira as costas. 
Por sua conta e risco, numa floresta cheia de lobos, um cordeiro sozinho é presa fácil. Isso, quando não se torna, vítima do lobo infiltrado no próprio rebanho. 
Um único lobo no rebanho, é o suficiente, assim como uma única fruta podre, põe toda a cesta de frutas a perder. Paradoxalmente, um único carneiro alerta, salva todo o rebanho da marcha pro abismo.
Basta que um dos carneiros se dê conta do engano e denunciando, comece a balir. Basta que um deles dê o alerta, para que todo o rebanho desperte do transe da mentira hipnótica, docemente repetida aos ouvidos e elimine a influência negativa. 
Então será o tempo de lamentar as perdas no rebanho e de perceber o quanto a falta de um líder que desse o alarme, custou a todo o grupo. Então talvez já seja tarde demais. 
Essencial é, conforme recomendava o Nazareno, saber separar joio de trigo. Mais que plantar a boa semente, vigiar a plantação. Evitar que os lobos semêem as sementes do mal. Sempre haverá lobos em meio ao rebanho. Se semearem o mal, devemos arrancar da plantação as mudas ruins, antes que cresçam e se tornem árvore frondosa de frutos podres, cuja sombra, nubla os olhos e faz crescer a discórdia até que vire pedra em nossos corações. 
Não há erva mais daninha que a mentira, não há erro maior que a ilusão, não há roubo maior que aquele que é feito à luz do dia, sob a sua supervisão, com a sua permissão. Com o consentimento do nosso silêncio servindo de amém. Não há engano maior que acariciar um lobo que parece ser apenas um inocente carneiro.
Por Cris Vaccarezza

As mãos que embalançam o berço? Aliás, que berço?

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Muito se fala sobre a importância da educação. Que precisamos investir em escolas, que as crianças precisam estudar, que é baixo o rendimento escolar, que os professores não estão atingindo seu objetivo de educar,etc etc... Mas esquecemos de que essas crianças que cruzam os portões das escolas públicas todos os dias, não são apenas estudantes, são pessoas, seres holísticos, cuja mente atribulada, raramente é uma tábula rasa de Locke, que permite ao professor nela escrever os seus ensinamentos. 
Antes de julgar a baixa aprendizagem, seria bom saber quem são esses brasileirinhos antes de chegar à escola? Eles tem saúde para ir às escolas? Eles têm suas necessidades básicas saciadas? Eles tem fome? Qual o papel da escola na vida deles? 
"Tia, eu prefiro vir pra escola do que ficar em casa vendo meu pai bater na gente..." "Eu venho para escola porque se eu não vinher, minha mãe corta o bolsa família" "eu venho pra escola, mas não entendo nada que a fessora fala..." "Moro longe tia, chego tarde, só dá pra sentar cá no fundo. Daqui não vejo nada do quadro". Por outro lado, as professoras dizem: "esses meninos não se concentram em nada!" Não aprendem nada!" " e o governo quer que aprove..." "Haja burrice!". Fato é que há um conflito instalado. Quem está com a razão? Quem está certo ou errado?
O Brasil é funcionalmente analfabeto. Isso quando não é analfabeto de pai e mãe. Esse analfabetismo endêmico se deve à burrice endêmica da minoria letrada e pensante. Sim, porque o silêncio nos momentos de caos também é uma atitude burra. A atitude deveria vir daqueles que tiveram acesso à educação. Que nunca passaram fome, que nunca foram espancados, abusados ou violentados, a quem nunca faltou saúde ou o mínimo preconizado pela OMS para se ter uma condição de bem estar biopsicosocial. Eu disse o mínimo.
Talvez, já venham com conhecimentos errôneos, aprendidos da base. Talvez não venham sem experiencias prévias e prontos a aprender. Talvez, suas tábulas rasas, as pretensas folhas em branco de suas mentes, onde deveriam ser gravados os conteúdos educacionais, já tenham sido gravadas com experiências nefastas.
Precisamos desemburrecer o Brasil, e não há uma fórmula para a mudança. A única forma de seguir é dando o primeiro passo. E o primeiro passo é a investigação. Que há planos, já sabemos. Que há leis, também. Promessas, sempre houve, e ação, cadê? Cadê a avaliação dos planos feitos?Precisamos sair dos recordes de analfabetismo, precisamos dizimar o analfabetismo funcional, precisamos ensinar os jovens a pensar. Nossas crianças que aprendem a ler e escrever, se tornam jovens incapazes de interpretar um texto simples. Como esperar que um dia tenham discernimento para escolher governante?  Muito se fala a respeito da valorização do professor, da importância da educação na escola. E a educação no lar? Como manter na escola, um ambiente social, um indivíduo que não aprendeu a respeitar por exemplo o direito dos outros, a coletividade? Como lidar na escola, com um indivíduo sem noções de hierarquia, respeito aos mais velhos e à autoridade de que é investido o professor naquele momento? Como manter na escola, crianças cujos pais nem sabem que tem só parte da visão de um olho, que não enxergam o quadro, quanto mais, o que está escrito nele? Crianças cujos pais nem sabem que tem um deficit de audição, que não conseguem ouvir o que o professor diz? Como educar uma criança que vai pra escola e tem que dividir a atenção entre o que diz o professor, e o barulho dos colegas e do seu próprio estômago vazio? A questão da educação é mais profunda. Vai além dos muros da escola, nasce em casa, no seio da família. Na mesa da família, que não se reúne mais, na mesa da família que está vazia de comida e repleta de fome, nos quartos das famílias, repletas de meninos paridos de qualquer jeito. Não porque foram desejados, mas porque foram concebidos e gerados pois seu nascimento representa um acréscimo na bolsa família. Não podemos parir bolsas família. Afinal que família? A educação não começa na escola. A educação começa em casa, com pai e mãe. Aliás, que pai? Aliás, quem é o pai? E que mãe? Aquela que tem que trabalhar pra sustentar o vício do pai? Ou o próprio vício? Aquela que tem apenas 13 anos e uma cabeça repleta de sonhos? Aquela que tem que estudar também? Ou aquela que tem que trabalhar em subempregos subumanos porque não tem qualificação para conseguir coisa melhor... E se não tem educação pra si, como esperar que tenham educação pra dar? Como dar daquilo que não se recebeu? O problema talvez seja muito mais ético que isoladamente educacional. Assim como a chave para a saúde está na prevenção, a chave para a educação talvez não esteja no método, mas na formação dos pilares educadores. E esses pilares, são predecessores aos professores que já recebem a bomba chiando. Esses pilares são os pais. "A mão que embala o berço é a mão que rege o mundo." Essa frase, atribuída a Abraham Lincoln, é a chave de toda a reflexão. São os pais, que educam, são eles que passam todos os valores às crianças. Inclusive o papel importante que tem a escola. São eles que delegam ao professor, a tarefa de ensinar os conteúdos aos seus filhos. O problema é que atualmente os pais não embalam mais o berço. São os avós, auxiliados pelos tios, pelos irmãos mais velhos, ou até as tias da creche e as professoras da escola, que tem a imprescindível tarefa de educar. A imprescindível tarefa de dar limites, de EDUCAR. E educar é informar àquele ser todo ego, todo id, todo vontades, que o mundo não é o quintal de sua casa, que ele precisa aprender a obedecer a regras, se quiser viver em sociedade. Que ele precisa ter limites. E como dar limites aos filhos dos outros? Que tarefa árdua? É uma relação de causa e efeito. A raiz do problema, talvez nem esteja nos bancos vazios das escolas, mas nos berços, por vezes inexistentes. Para edificações sólidas, há que se ter bases incorruptíveis. Conserte o autor e estaremos edificando a obra. Então eu volto à pergunta original, o berço. Quem são as mãos que ensinam a caminhar? Quem são as mãos que encaminham na vida? Quem são as mãos que embalançam s berço? O berço esplêndido, no qual permanecemos eternamente deitados? 17/11/2013

No freezer...

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Era assim que ela se sentia.
Ele era o cara que como dizia a terapeuta, conseguia mobiliza-la. Só ele a aquecia. Só com ele revirava os olhinhos e entregava a alma. Sabia que era um cafa, e pior, um cafa do tempo das cavernas. Politicamente incorreto, avesso aos padrões metrossexuais da sociedade atual. Ao contrario de vários amigos que conhecera nesse tempo de solteirice, e cujos argumentos não a convenciam de modo algum, ele era um "macho alfa". 
Consciente de seu dedinho podre, ela tentava, sinceramente tentava, interessar-se por eles. Mas nada! 
Por dentro era gelada como uma torta de limão. Doce na superfície, azeda na essência. Azeda por não ter percebidos seus sabores, diversos do gosto da maioria. Gostava do que detestavam. 
Gostava de ler, gostava de ouvir música que lhe falassem à alma, gostava de clássicos, de vestir casual, de simplicidade, de generosidade, de autenticidade. Detestava desonestidade e demagogia, adorava ação coerente com o discurso. 
Era sim, exigente demais, um alien.
Mais que isso, sabia que no fundo de tudo isso, havia um desejo de encontrar não o novo, mas o perdido. Uma comparação velada... Sabia que convidava com a boca, mas se postava na porta do coração, com uma espada. Só faltava gritar: xô! 
Cansada dos outros e da própria teimosia, resolvera manter-se isolada e em paz. Cautelosamente, escalara a geladeira e se refugiara lá, no congelador, no ponto mais alto da duplex. 
No freezer, aguardando que algum vulcão (talvez o único que lhe mobilizava) enviasse larvas em chamas, que alcançassem seu recanto, aquecendo sua alma, sem lhe violentar o coração.
(Por Cris Vaccarezza)

...Tempo...

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Meu pai sempre disse, e até hoje diz, uma frase que me vem à mente sempre que ouço alguém dizer (ou digo), "estou sem tempo": Tempo é uma questão de preferência!
É sim! Tempo é uma questão de escolhas. Em nossa rotina diária, além das atividades que exercitamos quase que mecanicamente, há aquelas que surgem de repente. E que às vezes se agigantam demandando atenção urgente. Dá para não ter tempo para uma questão assim? Não. Ainda que na agenda não haja tempo disponível, paramos tudo para resolver aquilo que nos aflige. E isso acontece, simplesmente porque, se não paramos para priorizar aquele assunto, as consequências serão graves, as perdas inevitáveis, ou a conquista daquilo que nos interessa, pode ficar ameaçada. Então encontramos tempo.
Há também, as coisas que queremos muito fazer, com as quais sonhamos e planejamos, ou as que nos dão prazer. Para essas, não importa o sacrifício, sempre se arruma um tempo. Através de uma verdadeira engenharia temporal, desconstruímos agendas, adiamos compromissos, negociamos atrasos, rearrumamos tudo, mas encontramos tempo para aquilo que nos interessa fazer. Para aquilo que preferimos fazer. 
Ao contrario, para aquelas coisas que nos desagradam, que exigem tomadas de atitude difícil, que exigem esforço sem representar grandes ganhos, nunca há tempo. Deixemos para amanha. Pior, deixemos que o tempo se encarregue de encontrar a resposta. Não nos interessa pensar a respeito. Não queremos pagar o ônus emocional, ou simplesmente, é um assunto que não nos interessa. 
Há ainda, aqueles casos em que apesar se não termos prazer em realizar determinada função, temos que encontrar tempo para ela, por obrigação. Nesse caso, a escolha é justamente seguir por falta de opção. Prazer, nenhum, e um tempo a elas emprestado de má vontade. Vamos empurrando com a barriga, até que algo nos permita tirar aquilo da lista das necessidades e o tempo para executa-las, passe a não existir. Um abandono.
A grosso modo, de maneira ilustrativa e evitando a generalização, creio que nossas escolhas ocorram mais ou menos assim: "Não tenho tempo para ir à academia!". Melhor seria dizer, não me interessa ir à academia. Ficar malhado tem um custo que a minha comodidade não está disposta a pagar. Mas basta aparecer aquele motivo interessante, personificado num corpo sarado que nos faça um convite certo, a companhia ideal e a academia passa a ser instantaneamente, uma extensão da nossa própria casa: Não abro mão da minha ginástica! Adoro estar em forma! Malhar, pra mim, é como respirar.
Mas vai que a coisa engrena, começa um namoro e na semana seguinte, a distinta ou o distinto, passeando pelos corredores da livraria, esbarra com uma beldade intelectual que lhe interessa imediatamente, eis que subitamente, a academia passa a ser algo pouco interessante, visto que o padrão sarado não seria uma prioridade para o interesse do momento. Se houver um contato e o interesse for mútuo, na semana seguinte, haverá mais idas a livrarias, bibliotecas, cinemas, concertos e bales, que à academia.
Tempo é sim uma questão de preferência. Preferi fazer isso e deixar de fazer aquilo porque isso me trará um retorno e aquilo não, ou não tão rápido. Claro que existem exceções, como em tudo. Há as urgências, nas quais querendo ou não, temos que arrumar tempo. São demandas procrastinadas, de escolhas que não priorizamos, ou são demandas alheias que exigem moralmente, uma solução imediata. Imprevistos, urgências acontecem. No entanto, ocorrem por breve período e muito raramente, afinal, exceto os bombeiros, ninguém vive de apagar incêndios. É impossível estar rotineiramente de urgência em urgência. Isso gera um estresse monumental.
Em resumo, traduzindo para bom português, normalmente, quando dizemos "estou sem tempo para nada", queremos dizer na verdade, estou sem tempo para isso; isso não me interessa no momento. E se esse "isso" para a qual não temos tempo, for alguém. Estamos obviamente, embora inconscientemente, comparando esse alguém a nada. "Não tenho tempo para nada" você é nada, por tanto, não tenho tempo para você.
Se você está sentindo que isso anda acontecendo contigo, sei não... Talvez seja hora de arrumar um tempinho na agenda e rever os seus conceitos.
Por Cris Vaccarezza

Os "diferentes" tempos da ditadura

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Politicamente incorreta, começo a escrever sobre um tema que certamente vai gerar críticas: A "direitofobia". 
Mas o objetivo é questionar, até que ponto estamos sendo manipulados? Se estimular reflexões e conseguir quebrar um pedacinho do gelo que nos mantém estáticos, o objetivo terá sido alcançado. 
Desde que o golpe dos militares trouxe a ditadura para as ruas do Brasil, com a repressão aos dissidentes, com as torturas aos "comunistas", com a sombra asfixiante da censura e mais uma série de atrocidades civis, que parece que nos tornamos fóbicos a quase tudo o que possa de longe parecer, conduzir ou sinalizar para um regime ditatorial, que NA ÉPOCA, era representado pela direita.
Tudo bem, gato escaldado, tem sim, muito medo de água fria. Fomos às ruas, lutamos pelo diretas já, pelo nosso evidente e inegável direito de votar e escolher. Até ai, tudo correto. 
O problema é que o ser humano tende a acostumar-se a um estado de normalidade. E inteligentemente, alguém passou a estudar o comportamento das massas. Começou a raciocinar um golpe democraticamente aberto, escancaradamente democrático e claramente preparado para subliminarmente, nos convencer a marchar. Não mais coagidos pelo medo da repressão, da ditadura, da censura. Coagidos agora, pela fobia de seu retorno.
Não! Pelamor de Deus! TUDO, menos a ditadura dos militares de volta!
Me lembra mais uma vez a alegoria da caverna de Platão. Me parece que estamos presos por vontade em uma caverna (de nomose e ignorância) donde só podemos enxergar as sombras de quem passa fora dessa caverna. Projetadas na parede da caverna, na penumbra, essas sombras nos parecem assustadoras e nos impedem de sair da caverna e buscar a luz da verdade e do conhecimento.
O que não percebemos, é que por medo de voltar a ser vítimas da ditadura da direita, vivemos numa outra ditadura mais sutil,mas não menos perigosa. A ditadura da esquerda, agora rebatizada de "exquerda", para que pareça que é obra "de direita" também. Seus soldados, não são mais os uniformizados militares. Os soldados de seu exército, são os pobres miseráveis que sempre existiram e continuam existindo, armados com os títulos de eleitor, e governados pela ameaça de perder as suas bolsas-família, gás, escola, etc, etc.
O que não percebemos, é que a censura está nas ruas, de maneira evidente. Quiseram cercear o direito da maioria de ir e vir, de se manifestar, de discordar, de protestar. Quiseram calar a voz que começa a se levantar. Que sempre começa a se elevar quando tudo tende a chegar a um limite. Mas num período em que Amarildos somem da unidade de polícia pacificadora; em que jornalistas e idosos são alvejados por balas de borracha, vocês estão com medo de que?
Ah é, tem aquela ameaça de que a direita estava leiloando o Brasil, acabando com o poder estatal. Até isso foi modernizado. Nada comparado a essa horda de corrupção juridicamente embasada, que assola o pais. Estamos num mar de lama mais profundo que o pré-sal e o governo continua nos anestesiando, investindo na política do pão e circo para calar a multidão de miseráveis que lhes serve de exército e para anestesiar os que talvez tivessem algum poder para modificar as coisas. 
O jargão é o mesmo pseudoassistencialista de sempre: "Nós nos preocupamos com você!" "Como nunca antes, na história desse país!". Para esconder a podridão das suas negociatas, disfarçadamente, inserem cultura recheada de marketing para ganhar com a engenharia mercadologica atual. Me explico: Citando apenas um exemplo do que é rotineiramente feito, recentemente, o governo lançou o vale cultura. Òhhhh! Que interessante! O governo quer que o país se torne mais intelectualizado! (Aplausos!) 
Mas mais intelectualizado, fazendo o que? Investindo esses R$ 50,00 do vale em: A) Cinema? B)Teatro? C) Livros? D) Espetáculos musicais de bom nível? E( de errado mesmo)Tv por assinatura? Qual das alternativas lhe parece mais palpável? A mim, parece que à tv por assinatura. A quem interessa isso? Quem é o proprietário de uma das maiores empresas de telefonia, internet e tv por assinatura do pais? Oi??? Não sabe? Seria bom pesquisar.
Bem, é claro que as pessoas ainda podem escolher outras opções culturais, principalmente o cinema. Mas que filmes seriam esses? Será que as pessoas optariam por um cult, com o nível intelectual que hoje temos? Será que optariam por livros em um pais que não lê? Percebe? É uma ditadura? Claro que não! Somos (aparentemente)livres! Opções há! Mas as opções são todas incorretas. Todas, menos uma. A mais óbvia. 
Vivemos a ditadura da obviedade. Está tão óbvia, que sequer enxergamos, tão focados que estamos em nossos tablets, smartphones e mp3 players. Assim fica fácil! Nos tornamos, por vontade própria, reféns dos inocentes úteis do exército do poder. Violência? Pra que, não é?
Por fim, vemos os poderosos utilizarem a justiça, a mesma justiça que condena um pai de família que roubou uma galinha pra alimentar a família faminta à prisão, libertar da cadeia, políticos e lobistas que enfiaram a mão em nossos bolsos com gosto.
Pra mim, quem lesa, rouba, desfalca ou engana, age com a mesma falta de caráter. E mereceria, em tese, punição. O que me irrita é a falta de coerência com que as coisas são normalmente tratadas no Brasil.
Da mesma maneira, o objetivo aqui, não é defender os erros da ditadura militar, mas alertar para o erro que nós mesmos estamos cometendo, em nome de um medo que é fictício, de um fantasma que foi criado apenas para nos manter sob o cerco da ignorância, por aqueles que antes criticavam os "de direita" e agora pioraram a tortura, os impostos, a corrupção, a manipulação e o controle sob nossas vidas. Agora, sem censura, abertamente. Nas nossas caras!
Creio que somente o exercício do pensar, do questionar, do discordar, pode acordar o gigante que após breve tomada de consciência, parece ter sido dopado outra vez. O caminho, não é pelos extremos. Se caminharmos só para a direita ou só para a esquerda, andaremos em círculos, como há anos. O caminho é o equilíbrio. Que nos permite colocar os pés tanto na direita, quanto na esquerda, quando necessário. Mais que isso, é o caminho do meio, o do equilíbrio, que nos permite andar pra frente.
Por Cris Vaccarezza

Dos riscos, das perdas, e dos danos...

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Nos perdemos. Nós nos perdemos um do outro, assim, de repente, como se perde a mala ou a viagem. Nos perdemos com se perde o ônibus ou o avião, e permanece-se ali na estação, vendo bonde e esperança irem embora, junto com os planos todos que foram feitos na véspera. Vendo todos os castelos de sonhos, erguidos em doces nuvens de algodão, dissolvendo ante o calor da realidade. Perdemos o bonde. 
E ficamos agora, diante do inevitável avaliar, meditar, culpar-se e questionar-se, onde foi que eu errei afinal? Teria eu sido negligente? Ausente? Inconstante? Teríamos simplesmente percebido que o destino onde queríamos chegar juntos, era distante demais? Sim, nós perdemos o bonde.  
Teríamos nós, concluído, ainda que silenciosamente, que erramos na escolha ou no destino? Ou que não estávamos tão interessados assim em partir, quanto os amigos Vanessa, Maria, Jorge, Paula ou Luiz pensavam? E que nos faziam atores felizes de histórias rosadas com final feliz. Como bem falaram eles, como bem disseram... Em vão! Éramos nós mesmos os personagens daquelas histórias? Talvez não. Quem saberá? Jamais se saberá, afinal, perdemos o bonde. 
O fato é que diante da certeza da perda, da constatação, do pesar, de ter chegado (atrasado) à estação, quando o trem já partiu, constatamos que a viagem talvez nem valesse tanto a pena assim. Talvez nem fosse pra ir. Que nos importa? Perdemos o bonde. 
É! Talvez seja melhor assim... A vida sabe o que faz. Se foi ela que nos uniu, também tratou de separar. Deixa ir, deixa estar! Afinal, o trem que partiu, um dia, necessariamente terá que voltar. E se for do regalo da vida, por alguma reviravolta, alheia à nossa vontade, estaremos aqui na estação, aguardando, quando ele chegar. Deixa que vá!
Perdemos o bonde. A esperança, talvez não!
Por Cris Vaccarezza 

Como um cavalo, trabalhou...

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Dez e meia da manha, o sol já ia alto, o asfalto fervia, o trânsito infernal de sempre no meio da metrópole. Um ir e vir de gente, um zigue-zaguear de carros apressados, um zunir de motos pelos corredores e um buzinaço de endoidecer monge budista. Nada diferente de um dia "normal". Nada que fosse digno de chamar a atenção dos estranhos. De repente, ao passar pela avenida apinhada, uma ilha, um vazio. 
Eis que ali, no canto da via, jazia um equino jogado. Era magro, muito magro, branco de tão pálido, bege de tão sujo e imóvel, parecia nem respirar. Ao seu lado, agora suspenso, o grilhão de toda uma vida, a carroça. O que mais chamava atenção no bizarro do quadro, era  o contraste entre a pesada ferramenta de trabalho, até há pouco a ele atrelada, e o estado esquálido do pobre animal: Trabalhara até a morte. Finalmente, aquele pobre animal conhecia o sabor da liberdade. Somente agora, estava livre dos arreios e chibatas, e descansava ali, no chão, entregue, às moscas e à comiseração pública. Que lástima!
Lastimava ainda mais a falta de divindade daquele ser humano, tão humano, tão racional, que levou o irracional àquele estado. Que imensa necessidade tinha, para permitir tamanha atrocidade? Não teria aquele animal demonstrado qualquer sinal de fadiga antes de desabar morto no meio da avenida? Ou seriam eles mais duas vítimas do inevitável, da desigualdade, da cegueira social, das bolsas-isso-e-aquilo, que supostamente livram da miséria? Que livramento de miséria teria poupado a vida daquele pobre cavalo? Talvez a educação! Quem sabe se aquele desesperado, ao invés de bater com a chibata num lombo magro, tivesse aprendido a ler e escrever, o final dessa história tivesse outro fim. Será? Será mesmo meu Deus, que estamos no caminho certo? Aquele animal não fora vítima do egoísmo. Fora vítima do "que jeito?"! Enquanto nossos pratos recheados, nossas camas quentinhas, nossas casas perfeitas nos aguardam, para muitos, só resta o "que jeito?".
E o corpo permanecia ali, num canto da avenida. Tão benevolente fora o bicho, que cairá morto num canto, sem atrapalhar o transito. Morreu como vivera, sem chamar a atenção para seu drama. Sem reclamar.
Ao seu redor, quatro ou cinco animais, dos racionais, provavelmente curiosos. E finalmente, agachado junto ao bicho, um Zé... Ou João, Carlos ou Pedro. Um apóstolo qualquer, testemunha final da agonia de seu companheiro de trabalho, que tristemente acompanhava o pouco que tinha, tornar-se ainda menor, diante daquela perda. Um necessitado, que ora lamentava, provavelmente preocupado com quem iria carregar aquela carroça de volta pra casa. Mais que isso, como render o dia de trabalho perdido.
E agora? Quem garantiria o pão dos meninos mais novos, quem garantiria o fumo da mulher, que por sua vez, fornecia o leite do mais novo? E quem garantiria o trocado extorquido pro crack do mais velho? Quem garantiria o trago de cachaça que lhe permitia engolir toda aquela dor, deitar e dormir até o próximo sol? Conformado, como todo brasileiro, começou a arrastar a carroça para longe, antes que fosse multado ou penalizado por aquela morte. Um ultimo olhar praquele que fora seu sustento e partiu cabisbaixo de volta pra casa. Sem remorsos. Tinha que tocar em frente. Que tempo tem de ter remorsos, um homem como ele? Que jeito?
É, Zé! Pelo jeito, tem jeito não...
Por Cris Vaccarezza


Outubro Rosa

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Não era mesmo uma ironia do destino? Em pleno mês de Outubro! Mais especificamente, dia 26, de um Outubro Rosa, se via olhando fixamente para aquele papel. Os olhos reliam e fingiam não compreender o escrito: "Células metastáticas de carcinoma do colo uterino altamente indiferenciadas". Mas sabia exatamente o que acabara de ler. Já vira muitos daqueles exames serem abertos, diariamente em sua rotina de trabalho. Câncer!  Não apenas um carcinoma in situ. Não apenas um câncer inicial. Aquela era praticamente, uma sentença de morte: Foram encontradas metástases de um tumor principal no colo do útero. E se fosse apenas isso, menos mal. Mas o papel dizia sem mais delongas: Altamente indiferenciadas. Ou seja completamente enlouquecidas, mordazes, destrutivas, invasivas, agressivas, vorazes. Em pouco tempo, aquelas pequenas partes de si mesma a destruiriam por completo. Autótrofas. Não havia muito tempo.
Não havia muito tempo para ver as crianças crescerem, não havia muito tempo para ver o sol nascer e se por. Não havia muito tempo para dançar na chuva, nem para comer brigadeiro até enjoar. Não haveria muito tempo para enjoar de nada. Não lhe restaria tempo para encontrar um grande amor...
Percebeu então, que adoecera em função de um grande amor. Fora por amor a ele, e não à saúde dela que fora exposta ao vírus. E ele, o vírus, causara tanto estrago. Pensava estar imune por estar casada por vinte e tantos anos. Pensara estar segura. Mas foi somente quando descobriu o caso extraconjugal, quase tão antigo quanto o casamento, que percebeu que fora redondamente enganada.
De lá pra cá, fora só trabalho, só rotina, só dedicação. Fora a mãe para compensar o pai ausente, fora a boa filha para compensar a mãe ausente, fora a melhor irmã, a melhor secretária, a melhor amiga, a melhor ouvinte; a melhor qualquer coisa que cuidasse dos outros e deixasse correr à margem, o rio da sua vida. Fora quase tudo, menos mulher... Aos 53, sentia-se uma velha já, para quase tudo... E agora, agora não havia mais tempo sequer para envelhecer. Percebeu que jamais envelheceria de fato.
Não havia muito tempo, como não houvera muito tempo nas tantas vezes em que marcara e desmarcara a visita ao médico. Não houvera tempo para cuidar da saúde. Nem houvera tempo para dar uma pausa no trabalho. Tantas vezes adiara um check-up, uma consulta, um exame de rotina...Estava sempre correndo, sempre apressada, sempre esbaforida, sempre atrasada e agora, que irônica e realmente não restava mais muito tempo, sentia-se jovem demais para morrer. Mas a vida não mais concordava com ela.
(Por Cris Vaccarezza)

A casual revolução da maçã

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Quem foi que instituiu a rapidinha? Quem foi que inventou o rapidinho? O apressadinho, o dá ou desce, o sai da frente que atrás vem gente? Quem foi que impôs como regra de conquista a efemeridade?
Acabou virando decreto que um casal se conhece e tem que rolar beijo no primeiro encontro, e tem que rolar amasso no segundo e tem que rolar química de cara e tem que rolar sexo no quarto, na sala, no elevador, na varanda, no motel, na balada.... Tem que rolar! Quem disse???
Estamos gerando um exército de solteirões ávidos por fortes emoções! Uma bando de zumbis que saem pras baladas, embalados pelo último hit dançante do momento em busca de devorar... de devora-se. E devoram-se velozmente, ferozmente. E quando acaba, acaba a química, desfaz-se a mágica. A carruagem vira abóbora, a Cinderela volta a ser mais uma gata borralheira e o príncipe, bem, esse nunca chegou de fato a deixar de ser sapo.
Cadê a graça? Cadê o frisson de se apaixonar? De se ver conquistado? De se sentir fascinado, de conhecer o outro e se deixar desvendar pouco a pouco? Cadê o passo a passo, o pouco a pouco? Cadê o romantismo? Será que embriagou-se na última balada e embriagado, tropeçou na escada e torceu o pescoço? Morreu?
Cadê a troca de olhares que vai pouco a pouco desvendando o outro? Cadê a troca de carinhos, de mãos, de abraços. Cadê a troca de afeto? Troca-se o que nesses relacionamentos instantâneos, além de fluidos corporais? Cadê as flores, cadê o diálogo? Será que dos amores de ontem, os contemporâneos forma reduzidos a apenas amantes?
Estamos formando um batalhão de carentes, anestesiados pelas várias doses de uma bebida qualquer. Altamente sexualizados, estressados, brutalmente acéfalos, em busca de uma válvula de escape que alivie a tensão? Virtualmente conectados, apaixonados e repentinamente percebidos como perfeitos desconhecidos. Desconhecidos até de nós mesmos. Nós não nos conhecemos! E Despertamos assustados em camas alheias, com os mais completos estranhos, em nome do prazer(?).
E há prazer? Estudos insinuam que não. Que o prazer real, reside na intimidade. O resto é um fingir sem freio. Fingir ser, fingir poder, estar bem na foto. Fingir satisfazer. Fingir satisfazer-se...Enfim! Em um mundo onde compra-se sexo em cápsulas e amor em comprimidos coloridos, porque não inventar o elixir do prazer instantâneo? E ele está aí, pelas noitadas...
E eu me pergunto apenas se foi a pílula anticoncepcional, que como a maçã, acabou com a pecha de ter inventado o pecado; ou se foi o corre corre cotidiano quem decretou que tem que ser agora, que tem que ser rapidinho, que tem que ser breve?
Um brinde àqueles que sabem o verdadeiro prazer escondido no esperar acontecer naturalmente.
(Por Cris Vaccarezza)

Escrito:Pensado e não dito

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Boa noite, amor!
Passei o final da tarde com o calor das suas mãos gravadas em meus cabelos. A suavidade de seus dedos no passear por entre os fios, mãos de quem é hábil em pentear meninas.
Passei a tarde com saudades de seus beijos, e com o cheiro do seu perfume ainda nas roupas.
Passei a tarde com a memória do mel dos seus olhos nos meus, e seu sorriso, ah, seu sorriso a me sorrir todo o tempo...
As músicas de ontem, cantadas e recantadas em meus ouvidos. E por fim, mas não menos importante, seu soprar de leve em meu pescoço, que longe de arrefecer o calor, elevava os graus do ambiente.
Em resumo, passei o fim da tarde com saudades de você...
Mas tudo assim, em silêncio. Fico assim, em silêncio. Pensado em silêncio, sentido em silêncio. Permanecido em silêncio... Impressão incômoda de que se pronunciado, se desfaria pelo ar.
Por Cris Vaccarezza

Exposto

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E de repente, o cheiro de um perfume inominado, me chega devagar. Me chega pelo ar, de longe... E se tranca na memória, escrevendo a sua história enredando pensamentos conflitantes. Arranca um suspiro de saudade. 
E eis que de repente te ouço em pensamento, numa dessas frases escritas e cantadas por alguém, que se endereça a quem se ama e enredam outras histórias, embalam corpos num balançar harmônico. E que ditas assim, num sussurro, cochichadas assim, ao pé do ouvido, se ligam imediatamente aos pelos dos meus braços, energizando-os...E eis que a poesia se faz mistério, que a vida se faz conselheira, que a estrada se faz ponte, que o dia se faz canção e o palco iluminado é o local de encontro das almas...Tudo em torno cala, suspira, conspira a favor. Toda a multidão se esconde, desaparece num cerrar de olhos que tudo sente. Num abrir de lábios que entregam uma alma, um coração...
E o que se faz com um coração exposto? É a pergunta que não quer calar.
Por Cris Vaccarezza

No trapézio sem rede

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Tão paradoxal quanto intensa, a sensação de se apaixonar...
Lentamente, rapidamente; cautelosa ou enlouquecidamente; sabiamente, irresponsavelmente, reversível ou irremediavelmente, apaixonar.
Sensação similar, devem ter os que se arriscam na ponta de um penhasco para se lançar ao sabor do vento, da sorte, num parapente, numa asa delta, num ultra-leve. Ou um trapezista do alto da torre do trapézio, na dúvida entre essa vinda e aquela volta do balanço. Na dúvida entre agarrar-se ou não aos braços que balançam estendidos. Aquele segundo decisivo onde você se percebe no alto e só há dois caminhos, desistir ou se atirar. Ver a vida lá de cima, deixar o resto do mundo cá embaixo, calcular o risco, imaginar a dor de estatelar-se na queda...
Mas aquela adrenalina... Ah, aquela adrenalina de coração na boca, aquele pulsar acelerado,descompassado, aquele sangue correndo nas veias e gritando: Estás vivo! Estamos vivos! Estou vivo! O prazer de respirar, não mais a brisa leve do rasteiro, o vento impulsivo da montanha, que areja a alma e despenteia os cabelos...
A ousadia de deixar que o outro toque sua pele, seu corpo, sua alma, seu coração. O medo do guardado, pouco a pouco revelado... A duvida do permitir-se ou não. A troca mútua de confiança, o tempo passado a dois, a força das palavras, dos silêncios, dos olhares, das inúmeras sensações.
E que sensação deliciosamente dúbia, essa de apaixonar-se e reapaixonar-se... Pelo outro, por si mesmo, pela vida em seus saltos sem rede de proteção...
Creio que ao decidir lançar-se, todos pensam: Que seja enfim... E que todas as reticências sejam lidas como suspiros... Como pontos de continuação.
Por Cris Vaccarezza

A menina Janaína, e a coruja Sinhá.

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Missão cumprida, pensava! Acima das montanhas, a despeito do despenhadeiro mais alto, estendia as asas firmemente, e se lançava com segurança. Certa de que só não chegaria ao seu destino, se não fosse a vontade de Deus. Mas não seriam seus medos, nem a chuva, nem os raios, nem mesmo a escuridão da madrugada que a afastariam de seus planos.
Conseguira vencer aquele medo afinal! Pensava em como seria se não tivesse vencido. Muito mais complicado. A natureza não se cumpriria. A cadeia não se completaria. E tudo graças à doce menina Janaína.
Lembrou de repente, de quando não tinha asas. Rastejava, pulava do poleiro para o chão da gaiola e de volta para o poleiro. Ave de rapina criada em cativeiro, limitada, amestrada, uma lástima. As asas, podadas, atrofiaram. A zona de conforto de seu mundinho conhecido, criara grades poderosas em torno de seus pensamentos: Os medos! E que grilhões poderosos, são os medos!
Aquele pássaro estava fadado a comer do que lhe davam diariamente no pratinho da gaiola. A viver engaiolado.
Ocorreu que um dia, os donos do viveiro deixaram de vir alimentá-la. Mudaram, deixaram o viveiro. Ao sair, deixaram também a gaiola aberta para Sinhá partir. O barulho da casa calou, a comida escasseou. Mas Sinhá não partiu. Não sabia partir, só tinha aprendido a ficar.
Condicionado, permanecia no confinamento, mesmo com a portinhola escancarada. Os dias se passavam e o pássaro adoecia de tédio e solidão. Morreria assim, aquém do que fora destinada a ser, por medo, conformismo até.
Um dia, passando pela casa abandonada, uma garota viu pela fresta da porta, a gaiola. Tinha ido ali libertar um pássaro mais jovem, um beija-flor que recusava o cativeiro, brigava, entristecia, sua gaiola fora esquecida fechada por descuido. Mas ele, sem mais poder fazer, cantava. Sinal de que não desistira de voar.  Foi o canto do beija flor que a atraiu. Ao se aproximar do beija flor, ela viu que além dele, havia no recinto a velha coruja na gaiola. Essa, coitada, além de não cantar, nem um corrupaco fazia, nem um pio... Estaria morta? Talvez adormecida.
Cuidadosa, curiosa, intrépida, como toda menina, Janaína se aproximou da gaiola. Observou que estava aberta, e a coruja respirava, mas nada fez. Respeitou seu tempo. Foi somente lá pelo quinto dia, quando a velha coruja se apercebeu de sua presença, que ela tentou chamar a sua atenção para a porta escancarada à frente: -Olha, está aberta! Voe! Passe por ela!
A coruja olhou divertida aquela menina. O que ela saberia de vôos, se era um ser humano? Mais que isso. o que saberia de gaiolas, se nunca fora aprisionada? Não arredou pé de seu poleiro. Ao contrário, acomodou-se ainda mais. Quem sabe aquela garota ia embora. Afinal, conseguira o que queria? O jovem beija-flor estava livre. Mas Janaína não conhecia limites para a sua fé. Voltava dia após dia e tentava insistentemente atrair a velha coruja para fora da gaiola. Levava frutas frescas, coisas novas. A coruja esperava que ela fosse embora e só então as experimentava. Percebeu que eram bons os sabores que vinham de fora. Algo além da ração.
Todos os dias, Janaína vinha, oferecia o dedo para que ela saísse e nele se empoleirasse. Sentava, ficava ali, imóvel, persistente. E nada. Um dia, a velha coruja, foi tomada de um ímpeto selvagem e resolveu se aproximar, não até a porta da gaiola, só um pouco mais perto. Ver melhor aquela garota, espiar. Mais um dia, mais perto. E qual não foi a alegria, finalmente no dia em que a velha coruja resolveu se arriscar além da gaiola e pousar na mão estendida.
Janaína se surpreendeu com o toque áspero das garras longas. Que engraçado, pensou: Eles podam as asas de um pássaro para impedi-los de chegar ao céu, mas as garras que o prendem ao chão ninguém pensa em cortar. A coruja, meio desajeitada apertava os dedos da mocinha com mais força que o necessário. A ânsia de equilibra-se lhe feria as frágeis mãos. Sentia o peso da responsabilidade de sustentá-lo, mas ela aguentou firme. A coruja confiava nela, não podia recuar. E foi assim que a magia se deu, como toda transformação efetiva e duradoura, pouco a pouco.
Certa manhã, ao chegar à sala, foi surpreendida ao ver a coruja fora do cercado, passeando tranquilamente pelo chão. Seu coração apertou. Mistura perigosa de ingenuidade e excesso de confiança. Sabia que por ali havia gatos, e esses, famintos, o que não fariam com uma velha e inexperiente coruja, que mal sabia voar? Pacientemente, ofereceu-lhe a mão e aproximando-a do rosto, com carinho, alertou sobre os perigos do lugar. Voar era preciso, mas antes disso, era fundamental aprender a se defender.
Não se sabe ao certo quanto tempo se passou. O fato é que um dia, Janaína chegou e a coruja não estava mais lá. - Fora comida pelo gato! Com toda a certeza! pensou aflita. Angustiada, passou o dia da porta para a janela a espreitar se algum gato aparecia portando penas suspeitas, ou com o pelo tingido de vermelho. Seria possível fazer algo ainda para salvá-la? As esperanças extinguiam-se com o passar das horas. Já era final da tarde quando inesperadamente, foi a própria coruja que apareceu na soleira da janela, trazendo um gafanhoto no bico. Sua primeira caça.
Suspirou aliviada. Estava livre, estava a salvo! Ainda assim, surpresa, se perguntava: - Meu Deus, coruja come gafanhoto? Achei que caçavam coisas maiores! Mas vá lá! Levou o dia inteiro, mas aquele gafanhoto, valia por um gato inteiro!
Por Cris V.
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Blindado

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"— Uma mulher como você? Tenho certeza que recebe muitos convites para sair.
— O que não quer dizer que eu os aceite.
— Fica bancando a difícil?
— Não. Só não gosto de magoar ninguém.
— Quer dizer que você arrasa corações?
— Não, não arraso corações — respondeu baixinho. — O meu coração é que foi arrasado."
— Nicholas Sparks.

Blindara o coração. Era fato! E blindara tão bem blindado, que sequer percebia que o tinha feito.
Blindara do afeto, das novas paixões. Blindara com o mais pesado chumbo, com o mais impenetrável aço. Blindara com força, blindara com fé.
Permitia flertes, vez ou outra, de quem não tinha mais poderes para lhe fazer mal. Permitia a chegada daqueles, cuja saída, provocaria os curto circuitos de uma leve paixonite. Não a tempestade ácida de um amor perdido. Amar de novo, não queria. Não sabia se poderia, ou se resistiria às intempéries de uma perda inesperada.
As balas da paixão não a feriam, ricocheteavam. Seu coração por defesa se fizera de titanium. Fora pego desprevenido quando bem jovem. Usaram e abusaram de sua boa fé. Agora livre, distante, sentia-se imune a qualquer cavalheiro que pleiteasse invadir seu castelo de sonhos, afogá-la de falsos amores e enfim fincar-lhe uma estaca na alma, uma espada no coração.
Madura, passado a limpo, cair nas armadilhas do amor? Não mais! Montara guarda do lado de fora e decidira: "Mantenha distancia! Daqui não passa ninguém!"
Mas eis que depois de tanto tempo, aquele paladino ameaçava por tudo a perder. Não parecia se intimidar com as suas caras feias. Com carinho e bons argumentos, derrubava um a um, os obstáculos que ela espalhava pelo caminho. "Mas o que quer esse estranho?" 
Não parece carregar uma espada. Empunhava apenas uma rosa. Sem escudos, sem cavalo, sem armaduras, vinha de peito aberto. Pedia uma escada rolante e a oportunidade de, chegando ao alto da torre, entregar-lhe a rosa. 
Vacilava... Deixar vir a rosa? Ouvir ou não? Duvidava... Seus olhos eram bons, suas palavras eram belas, seu sorriso encantador... Deveria deixar que escalasse a escada de aço? Ainda não sabia. Sabia apenas que ele chegara onde muitos falharam. Tinha a impressão (por enquanto era só impressão, que ficasse bem claro) de que aquele, se dera ao trabalho de observar a muralha e pensar em uma maneira de vencê-la. Via a fortaleza como era, uma proteção, não um empecilho. Talvez tivesse achado o ponto fraco no blindado. O pequeno furo que põe o dique abaixo. A pedrinha que faltava na muralha, o detalhe. 
E é o detalhe, amigo, que faz toda a diferença.
Por Cris Vaccarezza 

Elabore seu luto! Não reanime!

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Estou de luto!
Meu amor morreu!
Morreu asfixiado pelas frases não ditas.
Morreu pela falta de cuidados diários.
Morreu de descaso.
De inanição.
Morreu de desgosto. Morreu!
Foi assassinado pelas olhadelas pro lado.
Pelas farras cotidianas.
Pela mentira, aquela assassina silenciosa.
Pelo egoísmo, pelo comodismo.
Mas morreu também por culpa minha,
por minha submissão, pelo excesso de zelo.
Morreu pela baixa autoestima.
Morreu! Acidentou-se anos atrás.
Foi acometido pela cegueira mútua,
e caiu no abismo do silêncio.
Estava em coma.
Sobreviveu, apesar da morte racional.
Somente hoje, morreu de fato.
Somente hoje foi expedido o atestado de óbito:
Falência múltipla dos órgãos vitais.
Pois finalmente, o meu coração parou de bater.
Aos pés do leito, por prevenção, um bilhete:
FAVOR NÃO REANIMAR!
ACREDITO EM REENCARNAÇÃO
QUE EU RENASÇA BEM LONGE DAQUI
Assinado:O AMOR

Por Cris Vaccarezza

Equívoco

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Ah, por favor, me perdoe! Eu achei que era amor! Quando você disse "eu te amo", eu achei que era amor mesmo, AMOR assim em maiúsculas. 
Achei que ser especial significava ser especial para você. E não apenas ser especial naquele momento. Achei que suas palavras eram promessas de coração, não apenas papo de menino para pegar passarinho... Não achei que era apenas um passarinho frágil e bobo em suas mãos! Achei que era recíproco... Reciprocidade, você sabe o que significa? 
Penso diferente. Afinal, quem é frágil e bobo? O passarinho que, cativado em sua paz, se deixa aprisionar? Ou o menino que, equivocado, usa e abusa da confiança? Paradoxal...Creio que a fé seja virtude. Nunca acreditei que virtude fosse pecado. Para mim, passarinhos confiarão sempre. O que se fará com a fé do passarinho, vai para a conta do menino. 
Não vejo graça em ter um passarinho cativo. Prefiro vê-los livres, para quem sabe, quando queiram, pousar e cantar. Crer, é o meu mal...
Errei, é verdade. Mea culpa! Me perdoe o equívoco. Eu achei que era amor.
Não era amor. Era um erro de semântica, era apenas paixão. E paixão, quando travestida de amor, não constrói nada. Exceto gaiolas para aprisionar passarinhos frágeis e bobos. 
Paixão, assim como carnaval, como chuva de verão, simplesmente um dia acaba... Acabou!
Por Cris Vaccarezza 

Desapego

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Amanhecia mais um dia vazio, com os mesmos sintomas: Olhos cheios de lágrimas indecisas entre rolar ou não; o peito oprimido por uma lâmina fincada apenas no sentimento.
O estômago, permanentemente cheio de dor de uma dor imaterial. Apetite nenhum. Vez em quando, um sacudir negativamente a cabeça, como que tentasse espantar lembranças doces e venenosas. Uma tragédia anunciada, apenas postergada, apenas procrastinada.
Até que enfim, a desilusão bate à porta, cobrando o alto preço das ilusões vencidas, das promessas não pagas. É preciso abrir! Por que demorou tanto?
Eis que enfim, vejo meu rosto envelhecido em frente ao espelho, de tanto esperar por nada. Os olhos fundos das noites perdidas num aguardar em silêncio.
A mão que agora se estende em direção à fechadura, tampouco é a mão que vi balançando no ar em um vago adeus, quando você partiu. Naquele tempo, cria que a força desse amor te traria de volta. Mas não! A vida te tragou para os seus seios fartos. E você, se deixou levar.
Como culpa-lo? Se foram essas mesmas mãos, outrora jovens, que se abriram e te deixaram voar pela certeza de saber-te livre? Mas na esperança que o amor o fizesse ficar. Agora cansadas, envelhecidas, giram a maçaneta e deixam entrar as cobranças do tempo. Se há lagrimas, que comecem a rolar. Se há inapetência, que os quilos sigam porta a fora, junto com os sonhos. Já prolonguei demais meu outono.
Em verdade, foram muitas as estações travestidas de outono. Em meu mimetismo, praticamente gastei a vida, colando as folhas uma a uma, para que ficassem, Mas elas se foram. Um dia estiveram no alto das copas, agora recobrem o chão esperando a neve. É um ciclo. Em breve, brotarão da terra em verde novo, quando a primavera chegar. Tudo se renova.
Mas já que o inverno chegou, deixe os credores gelados da desilusão entrar. Que tomem um café comigo! Que se sintam em casa e me façam companhia no inverno de minha vida, que se inicia agora. Deixa que fiquem. Aqueçamo-nos!
Tudo passa... Assim como já houve sol, assim como um dia fez calor (custe o tempo que custar, lá na frente), há de vir uma primavera. Então, saciados, os credores partirão e meu coração, estará finalmente em paz.

Por Cris Vaccarezza

Sobre Shreks e Fionas

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Tenho percebido que depois que Shrek fez sucesso nos cinemas, muitas mulheres se arvoram a ser Fionas para fantasiar a vivência de um grande amor. Enquanto muitos homens justificam sua grosseria se autodenominando Shreks.
Resta saber se compreenderam os valores que os personagens tentaram retratar. O verdadeiro Shrek é o sentimento disfarçado de ogro. É a expressão da simplicidade. Para ele, a roupagem externa pouco importa. Á sua maneira, Shrek é gentil, amoroso, corajoso, generoso, altruísta. Fiona é uma mulher linda que abriu mão do fútil, do superficial, de sua imagem perfeita. Abriu mão de ser princesa, do príncipe encantado, para viver o grande amor que lhe completa. Shrek a completa por que a ama. Em minha opinião, outro detalhe importante, Fiona e Shrek estavam sozinhos quando se conheceram. Creio também que antes de qualquer coisa, é preciso estar sozinho(a) para encontrar alguém.
Usar o personagem para justificar a própria grosseria e egoísmo, e se intitular O Shrek, tipo: "Sou isso aí mesmo e quem não gostar que se exploda!" ou "Eu sou que nem o Shrek!" "Sou assim e não vou mudar por ninguém!" é covardia. Pior que isso, é ver mulheres que acham que ser tratadas como pano de chão, a base de patadas e grosserias é lindo, apaixonante e desejável.
Enfim, até para os contos de fadas, há que se ter bom senso. É bom não confundir o amor de Shrek e Fiona com sérios problemas de autoestima e fascinação por cafajestes. Para ter um grande amor, é preciso se achar digno de cuidar de um grande amor, e digno de receber um grande amor!
Para terminar, como dizia Vinícius:
"Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor."
Acho que os verdadeiros Shrek e Fiona, devem ter lido Vinícius de Moraes. Os fakes apenas pensam que leram, ou nem isso!
Por Cris Vaccarezza

Em modo avião

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Quem diria que, sempre tão prolixa, sempre tão falante, tão cheia de contatos; naquele dia, se sentaria no escuro, sozinha na varanda, olhos distantemente marejados, ao som de Barry White, Marvin Gaye...
Mania de fazer péssimas escolhas... Péssimo dia para ouvir Marvin Gaye! - Não misture com vinho! - Gritava o inconsciente, tenso. Subitamente, mais consciente que ela.
Fora isso, o mais absoluto silêncio. Celular no modo avião, como ela, nas nuvens. A casa em silêncio, os cachorros em silêncio. Até o vizinho barulhento, no mais absoluto silêncio. Ouvia-se grilos em plena cidade...
Não tinha dúvidas. Não tinha palavras. Crises de abstinência, nela tinham esse efeito colateral: A deixavam muda. Estava sofrendo justamente, da falta do que a consumia.
Mas a manhã haveria de chegar...
Estava certa de que passaria por mais uma metamorfose, e que dentro em pouco, sairia do casulo reinventada, com novas cores e ideias mirabolantes. Mas no momento, não.
No momento, queria apenas ouvir Barry White até que aquele dia interminável, quem sabe, por ventura, finalmente, chegasse ao fim!
Por Cris Vaccarezza

O que embeleza (e enfeia) a dança

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Dançar, segundo o dicionário, é se mover, ritmadamente, ao som de uma música. De forma harmônica... E eu me pergunto, e quem não tem jeito, ritmo, harmonia, flexibilidade, deve deixar de dançar para não enfeiar a dança?
Em minha concepção, dançar é por a alma em movimento. E como é lindo ver a beleza dançar. Há pessoas que embelezam a dança. Por outro lado, também há os que enfeiam o dançar. Principalmente, a dois. Dançar a dois é uma arte. É partilha. Duas pessoas diferentes, que tem que se unir para se movimentar.
Quando os corpos não sincronizam, há que ter alma para harmonizar os sentimentos. Às vezes um tem graça, o outro não. Às vezes um tem ritmo, ao outro falta. Um tem jeito, o outro não. Às vezes um nasceu para dançar, o outro morre de vontade. Há os que dançam muito e os que queriam muito conseguir. Difícil juntar, no mesmo ritmo, do mesmo jeito. Para embelezar a dança, quem dança muito, tem que ter a humildade de compreender quem apenas deseja muito dançar.
Há pessoas que embelezam a dança com sua postura. Não a sua postura corporal. Com sua postura moral. Tem a gentileza no olhar, a generosidade nos movimentos, a flexibilidade nos conceitos, a humildade como guia. Embeleza a dança, quem tem paciência com os erros dos outros, sabe que erra também. Embeleza a dança quem sorri de seus erros. Quem não se importa de tentar outra vez, quem quer ensinar, dividir, partilhar, se expressar, não apenas aparecer.
Embeleza a dança, quem perde o ritmo, o sapato, o passo, o cambret, mas não perde a linha. Não perde a elegância. Embeleza a dança, quem não se incomoda de ser eterno aprendiz, quem quer aprender todos os dias, quem não desiste nunca de ser feliz.
Enfeia a dança quem dança bem, mas dança só. Não sabe dividir, perdoar, agregar. Quem finge ser o que não é, quem se impacienta com os tropeços dos outros. Quem faz cara feia, comentário menor, movimento maldoso para derrubar o outro. Enfeia a dança quem tem o corpo mole e a alma enrijecida pelo orgulho. Quem é cheio de si e vazio de simpatia. Quem discrimina no convite, quem segrega, quem separa. Quem recusa sem motivo, quem só quer os melhores e esquece que ninguém pode ser o melhor em tudo.
Não enfeiam a dança os desajeitados, enfeiam a dança, os desalmados de todos os tipos. Os egoístas, os recalcados. Os que dançam para sim, não pelos outros. Não enfeia a dança, os que titubeiam, mas aqueles, cuja atitude beira o estrelismo e a incompreensão.
Enfeia a dança, não quem tropeça num passo, mas quem tropeça no próprio ego inflado. Quem precisa diminuir o candeeiro alheio para fazer o próprio holofote brilhar. São como pedras de zircônio, aparentemente lindas, mas carentes de luz. Necessitam estar sob os holofotes para se sentir resplandescentes. Acontece que o irreal, não dura para sempre. Um zircônio brilha, mas jamais será diamante. Zircônio só é zircônio, na luz. Diamante é diamante em qualquer lugar. Diamantes duram para sempre.
Não enfeie a dança. Não enfeie a vida. Respeite o talento dos outros. Respeite a falta de talento do outro. Respeite. Se o outro não consegue, compreenda. Se o outro não sabe, ensine. Ensinar é ser generoso, tolerante, é sorrir de coração, não só da boca pra fora. Fomentar competição entre desiguais não é ensinar, é desmotivar. Há os que dançam para competir, mas também há os que dançam para não se sentir sós. Pense no quão só, uma pessoa rejeitada pode se sentir.
Embeleze a dança. Quer dance pelo prazer pessoal, ou pelo profissional, que pessoal seja pessoal e profissional, seja profissional.  Minhas caras damas, meus queridos cavalheiros: A escolha desses nomes, não foi e nunca será coincidência. Vale honrar o posto ainda dure apenas uma dança.
Por Cris Vaccarezza

Tempo ao tempo

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Quem olha rápido demais, corre o risco de não ver.
Quem vê rápido demais, corre o risco de não conhecer.
Quem conhece rápido demais, corre o risco de não entender.
E quem não entende, corre sério risco de perder...
A vida é um risco, mas dar tempo ao tempo, é essencial.

Por Cris Vaccarezza

Termine seu relacionamento anterior!

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Li recentemente um texto de Carpinejar que não ficou restrito aos olhos ou arquivado como uma vaga lembrança. Esse texto me falou direto ao coração. Para início de conversa, ele pôs no título a questão que mais perpassa nas mentes femininas dos últimos tempos: Porque você não arruma namorado?
Ele coloca a questão assim, voltada para as mulheres, mas  segundo relato de alguns amigos solteirões convictos, é uma questão que também começa a incomodar as mentes masculinas. Então, acho que podemos tornar a questão unissex, já que ultimamente, todo mundo transa, se envolve, fica, rola, dá fugidinha, tem casos... Mas poucos, muito poucos mesmo, são os que namoram.
Há até os relacionamentos placebo, mas namoro mesmo, de entregar a alma e confiar o coração reciprocamente, são raros os casos.
São raros os casais que trocam afeto além das aparências, da superfície da pele, além dos ditames da sociedade, dos perfis de facebook. Enfim,  isso é outra história. Foquemos nos que realmente querem um namorado e não qualquer namorado.
No texto, Capinejar afirma que não arranjamos namorado por que não terminamos o namoro anterior, ou o casamento anterior, ou o caso anterior, etc. Ele está coberto de razão. A física já afirma, dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Se o defunto anterior não desocupou o armário, não há como abrir a casa para novas visitas.  Haverá sempre um cheirinho estranho no ar.
Que tal se pôr diante do espelho, olhar no fundo dos seus olhos e se perguntar: Eu realmente terminei com aquele cara/moça? Se essa pessoa fosse um pouco diferente, eu a aceitaria de volta? Observe a resposta. Se você for bastante sincero consigo, verá que as respostas normalmente são: não é sim. O relacionamento anterior não acabou. Você só está esperando que fulano(a) volte pra você, "um pouco" diferente. Está guardando seu lugar.
Mas se ainda há alguém virtualmente morando em seu coração, um ex alguma coisa mal resolvida, vá lá e resolva. Se ainda ama, diga! Se ainda te ama, tente. Se não dá  certo de jeito nenhum, delete. Se te magoou, se te feriu, perdoe e deixe ir. Mas deixe ir. Esqueça! O problema é que esquecer, dói e ninguém quer sofrer, então faz de conta que, e aí já viu, né? Haja fazer de conta! Então, generosamente, deixe-as ir.
Pessoas não voltam um pouco diferentes, um pouco do seu jeito, um pouco melhoradas por causa da sua vontade. Pessoas são o que são. Ame-as ou deixe-as! Elas não mudam para agradar os outros. Pessoas  mudam sim. Mas não por você. Mudam por elas mesmas. E isso requer um tempo que você talvez não possa esperar. Então carinhosamente, deixe-as ir.
Termine o seu relacionamento anterior. Não ponha mais vírgulas onde só cabe um ponto final. Não corra o risco de prolongar um parágrafo indefinidamente... Ninguém lê parágrafos longos demais.
Não corra o risco de enterrar a sua vida junto com um relacionamento que faleceu. Talvez esteja dispensando os outros, antes de conhecer por não ser aquele a quem espera voltar "um pouco" diferente, guardando o lugar com a bolsa na cadeira vazia ao seu lado. Distribuindo desprezo e achando que os outros é que não querem nada com você.
Queira algo com você! Antes de querer arrumar outro alguém, descubra se há vagas!
Por Cris Vaccarezza

Repetente

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Um dia falaram de figurinhas repetidas que não completam álbum. De reprise, filme queimado que já conheciam o final. Falaram tanta besteira...
Achavam, naquela época, que já tinham fechado um ciclo, e precisavam seguir em frente. Relacionamento encerrado. Graduados, já.
Achavam que a vida era um mar de oportunidades. Tanto peixe grande num oceano de gente nova, e eles presos numa rede, contando piabas?
Vistas de dentro de um relacionamento longo, as pessoas de fora eram tão mais perfeitas, tão mais desejáveis... E os defeitos dos dois, insuportáveis.
Achavam que estavam perdendo tempo um com o outro.
E de repente, se deram conta de que o tempo passou. Anos. Mas eles, nunca passaram. Apesar da distância dos corpos, as almas nunca se apartaram de vez. O melhor cheiro do mundo, ainda era o cheiro dela na fronha. O melhor travesseiro dela, seus braços, seu peito, ouvindo seu coração, descompassado. Só lá, conseguia dormir em paz.
Descobriram que quando se abraçavam, ainda sentiam-se em casa. A casa barulhenta de tempos atrás. Quando juntos, acordavam e dormiam, quando juntos, partilhavam a mesa do café da manhã e o espelho na correria do sair. Descobriu que era ainda em seus olhos que ela espelhava sua alma. Ele descobriu, que eram as mãos dela, que via segurando as suas se e quando envelhecesse. Descobriram que as polêmicas de um, só tinham graça se tivessem as opiniões pirraçantemente erradas do outro, para rebater.
- Será que foi por isso nunca deu certo com ninguém? -Ela perguntou. -Talvez, só dê certo (de novo) com você. Outro dia, lera Carpinejar, que perguntava "por que você não arruma namorado?" Estava intrigada e transferia agora a pergunta para ele: -Por que você não arrumou uma namorada? -Pelo mesmo motivo que você não arruma namorado! - Ele respondeu. Simplesmente a verdade.
Casos, paqueras, namoricos, ficantes e paixonites não contavam. Foram só os outros. Namorado mesmo. Namorada mesmo, nenhum! Nada de nAMORar. Tantos tubarões, robalos, salmões e namorados se mostraram não mais que piabas quando vistos de perto, sem as lentes da ilusão.
E ai se perguntavam: De novo? Os mesmos? Iguais? E se deram conta de que não eram iguais. Mudaram, embora conservassem o que ainda os prendia. Mudaram no que era desprezível. Talvez agora, despojados do supérfluo, tenham aprendido o que era essencial: A falta que faz a intimidade num amor de verdade. Todo o resto, é orgulho e vaidade.
Por Cris Vaccarezza

Esse lugar está vago?

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Você esta realmente sozinha? Ou virtualmente acompanhada? 
Imagine-se indo ao teatro, cinema, a uma festa ou a um restaurante sozinha. Um desconforto unissex, mas vamos imaginar mulheres especialmente, pois se vão acompanhadas ao banheiro, como ir sozinha a algum lugar? Mas digamos que aconteceu, está sozinha e inconscientemente, põe a bolsa na cadeira ao lado. 
Há pessoas que simplesmente desistiriam do passeio, se nao houvesse companhia. Ou iriam ao balé com aquela tia faladeira que não a deixaria prestar atenção  ao espetáculo um só segundo, a ir só.  Outras preferem levar o cafa mais boçal e narcisista do mundo, que não vai entender nada do filme e ainda tentará insistentemente passar a mão em sua perna, ao invés de curtir a sua companhia. Outras ainda, chegarão na festa, lindas, mas tão tão deslocadas, que enfiarão os olhos no celular e nem olharão em torno. Tudo isso, para não estar só.
Locais como esses, seriam ótimas oportunidades para se conhecer alguém, mas nós ocupamos a vaga que deveria estar aberta. Estão sozinhas? Não! Estão virtualmente acompanhadas.
Ao seu lado, como na vida,  a cadeira tem que estar vazia, para que alguém novo possa ocupá-la. Mas se mantemos sempre a bolsa, o livro ou o chapéu sobre ela, ou aquela companhia que nao tem nada a ver conosco, raros são os que se atreveriam a perguntar, esse lugar está vago? Aparentemente não está. E lembre-se, vivemos num mundo de aparências.
Se não há ninguém na vaga do seu coração, não faça de conta que tem, só para não se sentir sozinha. Não ressuscite o ex, para te acompanhar nas horas incertas. Não leve a amiga que não está ali, para ocupar uma vaga que está aberta. Não se ausente, enfiando os olhos no celular. E pelo amor de Deus, descarte o cafa. Apenas olhe em volta.
Dispensando os outros, antes de conhecer por nao ser aquele a quem espera com a bolsa na cadeira.
Tá sozinha? Vá sozinha mesmo. Que mal tem? Se você nao se sentir boa companhia para si mesma, para quem será boa companhia? Se nao suporta a própria companhia, quem suportará? 
Até que surja alguém que valha a pena, ame-se, curta-se! Nao há nada errado em se estar só. Lembre-se do que a vovó já dizia: Antes só que mal acompanhada.
Por Cris Vaccarezza 

Se lembre dos outros

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Para a minha mãe:

Eu era pequena, me lembro ainda, dos almoços em família. Sentávamos todos à mesa, juntos, no mesmo horário e só podíamos nos levantar, com permissão, ao final da refeição. A hierarquia era fielmente obedecida. Ali, os assuntos eram abordados e havia questionamento sobre o cotidiano de cada um de nós. Eram os tempos da ditadura, e esses almoços, na época tidos como chatos, eram como uma revista às tropas.
Me lembro que, de vez em quando, o prato do dia era um de meus favoritos. Nessas ocasiões, ao me servir, costumava ir com muita sede ao pote. Tudo aquilo que nos agrada o gosto, normalmente é um convite ao exagero.
Era então que minha mãe alertava, com seu tom firme e conciliador: "Se lembre dos outros!"
Essa máxima, ela deve ter aprendido também na infância, com os próprios pais, numa época muito mais dura, quando as bocas sobravam e a comida era escassa.
O fato é que com essa observação, eu era obrigada a levantar os olhos do meu prato, do meu apetite, que como em toda criança, era o centro das atenções, e lembrar das outras pessoas que também estavam sentadas à mesa, ou que aguardavam para se servir depois. Percebia que, assim como eu, elas também tinham expectativa, ansiedade e fome.
Com essas palavras tão simples da minha mãe, aprendi a me lembrar que há os outros. Aprendi a pensar nas necessidades dos outros. Não apenas nas questões alimentares, mas também nas outras demandas que temos. Aprendi também a me colocar no lugar dos outros, a podar um pouco que seja o meu egoísmo.
Passei a lembrar, que enquanto sacio a minha fome, milhares de pessoas iguais a mim, não tem esse direito tão básico. A orar por elas, e agradecer por nós. Passei a recordar que enquanto há fartura para alguns, para outros, tudo falta. E a me perguntar, e se fosse comigo?
Foi com essa frase, que a minha mãe em sua simplicidade, me recordou as palavras de Jesus: "Ao próximo, como a ti mesmo."
E hoje eu penso, que falta fazem esses almoços em família, aos filhos a quem não deixamos faltar nada... Talvez, em nossa ânsia por preencher, deixemos faltar a eles, o básico: Educação.
Talvez, em nossas agendas apertadas, em nossos almoços de negocios, em nossa vida corrida para que não falte o alimento, a roupa, o estudo, tenhamos esquecido de lhes dar o mais importante. O que Saint-Exuperry já dizia, é invisível aos olhos, o essencial: A devida atenção.
Talvez lhes falte a noção de que não estão sozinhos nesse mundo. De que todos são iguais. A noção de que a minha dor, a minha falta, não é mais importante que a do meu irmão da casa ao lado, só porque é a minha.
Talvez lhes falte os almoços em família. Mais que isso, acho que falta dizer a eles, com aquela voz docemente enérgica: "Se lembre dos outros!"

Mãe, muito obrigada!

Por Cris Vaccarezza

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