Fim de semana

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Respiro hoje, entre a saudade de te ver tão longe e a certeza de que mesmo longe, algo nos traz seguros um ao outro. Grudadinhos.

É nosso segundo final de semana separados. O segundo de 33. Sempre tivemos os finais de semana para dar uma pausa nas agendas agitadas e ficar...

Ficar jiboiando, cuidando do jardim, viajando, namorando, amando, cozinhando, dançando, assistindo TV, ajeitando isso ninho, ou simplesmente, curtindo a presença um do outro. Sempre tivemos esse tempo pra nós. Mas agora, embora sós, estamos distantes, e não como antes, doravante terá que ser assim, vez em quando. Se quisermos ser só um. Quando em vez, haveremos de ser metade, em nome da sociedade, do trabalho, do porvir.

Até então, sempre tivemos nosso próprio tempo. Ou nosso intervalo de tempo até 

que a segunda nos separe, ou nos una mais uma vez. Mas os finais de semana... Ah! Os finais de semana sempre foram nosso refúgio. Do estresse, da inflação, da encheção do dia a dia, da rotina, do mi-mi-mi, das incertezas. Os finais de semana sempre foram uma certeza. Mas havia uma barreira entre nós. Ou melhor, Barreiras... sua maior rota. A maior distância entre dois pontos. Quase 700 quilômetros entre minha mão e a tua, e ainda te sinto do meu lado...

Saudade, amor!! Saudade do teu cheiro de amor! Saudade do teu olho de mel, saudade do teu carinho, da tua presença aqui.

Vai, amor! Seguir sua rota, seu destino! Mas volta, pra casa, pra junto, pra perto de mim! Vem ser chegada, calor, braço forte. Vem ser morada do meu aconchego, vem ser palavra carinhosa e amiga, vem ser abrigo pro sono e pro meu despertar!

Te amo completo, inteiro, distante. Te amo constante, onde quer que vá! Te quero meu rei, meu parceiro, meu tudo. Te quero maduro e assim vou te amar.

Te quero exata, domada, insegura. Te quero candura e também rigidez . Te quero meu homem, amado, amigo. 

Te quero comigo, pra sempre, antes, durante e  depois!!

Por: Cris Vaccarezza

Para: Cris Amarante


Dois... Um

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Nosso amor não começou quente, como uma cena de novela.
Nosso amor começou frio como a tela de um smartphone.
Nosso amor começou de um dueto.
Começou de dois mundos e de uma vontade.
Começou pequeno, cerca de sete polegadas de uma foto.
Seu olho, meu olho. Um brilho, um huuuuuum!
Depois veio um oi, outro oi. Dois sininhos.
Um papo que durou quase uma noite.
Poderia não ter durado, eu poderia estar ocupada, ou você atarefado.
Mas durou.
Duas semanas de papos eventuais, silêncios, conversas.
Um tímido? Dois tímidos? Duas curiosidades!
Uma micareta. Uma reserva à distância. Duas ansiedades.
Uma distancia vencida. Dois corpos postos frente à frente.
Dois dispostos a serem só um. Um compromisso.
Cartas na mesa. Olhos nos olhos.
E de repente duas mãos, quatro mãos, uma mão sobre outra e um choque!
... Ei! Que susto! Tocou a mão? Foi mais além. Aqueceu um coração. Ou dois!
Dois nomes, dois carros, duas vidas, uma coincidência.
Nosso amor saiu da virtualidade, passou pela originalidade
e aportou no mar de coisas em comum.
Nosso amor era de dois, passou a ser de cinco, de sete, de dezessete.
E hoje é uma família que comporta quantos mais vier.
Nosso amor não começou gigante.
Começou do tamanho da tela de um smartphone
e ganhou os mares de Salvador, Ilhéus, de Itacaré, de Sauípe
Nosso amor começou na terra sulcada das dores sofridas
No chão batido da desconfiança madura. No não da dúvida.
Mas arrancou as raízes do nosso juízo e nos colocou face a face com a superlua.
Nosso amor não é comum. Como cada amor é único.
O meu é seu, e o seu é meu e isso basta!
Já não sou metade, também não me sinto apenas um inteiro.
Sinto que sou o dobro em você.
Te amo imensamente como a lua que refletindo o dourado de seu sol,
prateia a noite em um radioso dia.
De: Cris Vaccarezza
Para: Cris Amarante

Inércia

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Julgava ter esquecido os doces dias de sua infância, quando sonhava correr livre pelos campos, pés no chão, cabeça nas nuvens, cabelos ao vento. Julgava tê-los esquecido. Mas não!

Julgava ter paciência com as coisas de seu passado. Quem dera... seu coração rancoroso, era duro como pedra.

Julgava que era pra ser, mas percebia emudecida que o que era pra ter sido, infelizmente, não era.

Era, isto sim, uma promessa não cumprida, uma esperança perdida, um futuro desperdiçado. 

"Poderia ter ido tão longe, diziam, se não tivesse desistido!"

Eu não desisti! Gritava de si para si mesma, cortaram-me as asas!

"Não importa!" Repetiam em coro. Realmente, não importa mais... 

Queria ter encontrado o tão sonhado caminho dourado através do vale encantado da desilusão. Mas não! Travara ainda no início da jornada. 

Travara de medo, travara de ansiedade. Travara, empacara, desistira. E para o coral de acusadores, para a assembleia de incautos, que nada faz além de julgar, falhara.

Queria ser tolerante com eles. Queria ser tolerante consigo, mas nunca tivera personalidade forte. E o coro dos descontentes vencia o silêncio interior de sua permissividade.

Foi ficando, foi ficando... e de tanto não ir, criou raízes e fez-se árvore. A observar do alto da colina, todo o imenso vale, que seus pés adorariam te explorado.

Por Cris Vaccarezza

Seu jardim

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Estivera tão feliz em Passárgada, onde era amiga do Rei, que imaginara jamais precisasse retornar e sentar-se outra vez à sombra do Cipreste.
Mas lá estava, depois de tanto tempo, perdida em meio a sentimentos conflitantes e a dúvidas infinitas. Lá estava outra vez, de frente com a própria solidão.
Estava de volta ao jardim, para meditar, sozinha. 

Percebeu que passou-se tempo, sem que desse ouvidos àquele silêncio de grilos que cantam, àquela paz de ouvir estrelas cadentes.

Percebeu que por pouco, não perderá a sua fé. Mas sua fé, jamais a perdera. Estivera todo tempo na sebe, sob as franjas da trepadeira florida, ao alcance do jasmim da vovó, nas reminiscências da infância e na certeza de sempre haver um Porto Seguro, só seu, para retornar enfim, quando cansada da lida.

Estava em casa, em sua morada, em seu jardim, e ali, estava certa de que nada lhe poderia entristecer.

Morada é onde hospedas a tua alma, morada é onde quer que construas o teu próprio jardim. Seu jardim era ali. Jamais seria em outro lugar.

Por Cris Vaccarezza

Que venha!

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Ó vida de minha vida,
alma de minha alma,
carne que na minha se encrava
amor que enche minha alma de luz!

Vem verdejar seus dias
na esperança pueril
que em meu peito fez brotar

vem dessedentar tua sede
no veio de água pura
que mareja de felicidade o meu olhar

vem repousar teu rosto cansado
de homem devotado e trabalhador
em meu peito saudoso
que ansioso já espera a sua volta

vem ser meu companheiro
nesses dias de jornada
vem ser minha estrada
vem caminhar comigo
vem, meu amor!

Vem e vamos juntos, para sempre,
mão na mao!
Por Cris Vaccarezza

Sobre diamantes e seres humanos

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Sobre diamantes e seres humanos, temos ouvido muitas coisas. Sobre os primeiros, diz-se que seriam eternos. E o são, se comparados aos humanos, que duram sobre a terra um século, mais ou menos. Ainda assim, seres humanos são capazes, tanto de arriscar a própria vida curta, quanto de ceifar vidas alheias, pela sensação efêmera de ser o dono dessa eternidade material dos diamantes.
Ao contrário dos diamantes, extremamente raros e valiosos, costuma-se dizer que os seres humanos estão cada vez mais comuns e ordinários. Os diamantes pertencem ao reino mineral, inanimados, os seres humanos, ao animal. E diz-se ainda, que deveriam ser o topo da cadeia evolutiva, os líderes das demais espécies, embora pareça, que são os únicos de seu reino, a destruir o próprio habitat. Essas seriam apenas algumas das inúmeras diferenças entre diamantes e seres humanos. Mas e quanto às semelhanças?
Visto de forma mais ampla, não seríamos nós, os diamantes divinos?  Deus nos criou, assim como aos diamantes, simples e ignorantes, pedra bruta. Quando pensamos em um diamante, somos levados à imagem de uma pedra linda, lapidada, multifacetada, e extremamente brilhante. O diamante é um cristal que refrata a luz, separando-a nas cores do arco íris. Mas isso não é obra da natureza, é a arte da lapidação. Um diamante bruto, dificilmente seria diferenciado por leigos de uma pedra de quartzo qualquer. Ninguém espere topar por aí com um diamante lapidado, desses que vemos nas vitrines das joalherias. Ao contemplá-los, ficamos tão bestificados com seu brilho e beleza, que sequer nos damos conta de pensar em como ficaram daquela forma de brilhante. Como a pedra bruta tornou-se uma joia rara.
Um diamante é um cristal cuja composição química é idêntica à do grafite comum desses que colocamos nos lápis para escrever: carbono. A diferença entre os dois, é a forma geométrica que os átomos de carbono tomam entre si. A grosso modo, foi a pressão e a temperatura a que foram submetidos em sua formação que determina quem será grafite e quem será diamante. Enquanto o grafite ou grafita é um mineral superficial, diamantes são formados nas camadas mais profundas da terra, onde a temperatura e a pressão atmosférica são muito elevadas, e vem à tona através de erupções vulcânicas.
Para que adquira a forma de brilhante, capaz de decompor a luz branca nas cores do arco-íris, um diamante bruto precisa ser lapidado. Lapidação é o processo pelo qual uma gema é cortada, serrada é quebrada em seus pontos mais fracos, para que se formem as facetas que a revelarão um brilhante. Essa não é uma tarefa das mais fáceis, já que o diamante é o mineral mais duro encontrado na natureza. Seu nome vem do grego diamas, uma alteração de adamas, indomável. Diz-se que como o diamante era uma pedra que não podia ser cortada por nenhuma outra, os gregos diziam que era "indomável".
Eis o desafio, como cortar uma pedra indomável?! Se um diamante bruto não reluz, como transformá-lo num brilhante? Como trabalhá-lo? Como lapidá-lo, para que dele se extraia o melhor de seu valor?
Como descobriram os gregos, nenhuma outra pedra era capaz de cortá-la. Exceto outro diamante. Na natureza, apenas um diamante é capaz de cortar outro. São os chamados diamantes cortadores. Através de um processo conhecido como clivagem, uma fina ranhura é produzida a pancadas no diamante bruto, usando outro diamante em seus pontos fracos. No desbaste, outro diamante é esfregado ao primeiro, para com o atrito, dar um acabamento rudimentar à borda exterior da pedra. Por fim, no polimento, a pedra é colocada em uma roda giratória revestida com pó de diamante para alisá-lo.
E assim, durante todo o processo artesanal de lapidação da pedra, são usados outros diamantes para dela extrair seu máximo brilho. A pedra bruta é cortada, polida, facetada, até chegar ao brilhante. Nesse processo, muito se sua estrutura é perdida, as partes menos perfeitas da estrutura são desprezadas, o todo é clivado. Desde o seu processo de formação nas entranhas da terra, sob pressão e temperatura extremas, até o brilhante final, poder-se-ia dizer de forma figurada, que um diamante sofreu muito para extrair de dentro de si, a pedra preciosa.
Assim também são os seres humanos. Pedras brutas que somos, corações empedernidos que temos, amores engessados, perdões negados, almas embrutecidas, sentimentos endurecidos, vidas que nada vale para o próximo, mas de um valor inestimável para o Criador. Então, como extrair de nós, a luz dos sentimentos mais puros e elevados? Através da lapidação divina. Nós somos os diamantes de Deus. E para lapidar-nos, a vida usa exatamente outros diamantes como nós. Igualmente endurecidos e cortantes. Dessa maneira, fica mais fácil compreender quando alguém nos fere, nos diz palavras duras e ofensivas, quando alguém nos machuca, está na verdade evidenciando as impurezas e imperfeições que existem em nossa pedra bruta.
As vicissitudes da vida, nada mais são, que um processo de burilamento, de polimento da nossa alma, livrando-nos do orgulho, só egoísmo, do ódio, da raiva, do ressentimento. Tornando-nos pessoas mais tolerantes, pacíficas, altruístas e humildes. Afinal, somos tão falhos, que vistos de perto, de que temos que nos orgulhar? Erramos tanto com os outros, porque não aceitar que os outros também são passíveis de erro? Sentimos tanto as nossas dores, porque não ser compassivo com a dor do próximo? Como perceber que não somos joia rara, se não pararmos de apontar os erros dos outros e observarmos o nosso próprio grau de impureza e atraso? Não é fácil. Apenas outro diamante para cortar um diamante. Apenas outro ser humano, através das incontáveis relações que travamos na vida, para que nos aperfeiçoemos enquanto pessoas.
Não somos melhores que ninguém! Somos todos diamantes. Alguns em fase de polimento diferente. Uns mais brutos, outros mais límpidos, uns mais enfurecidos, outros mais puros, mas todos num processo que nos conduzirá à luz. Que nos permitamos chegar um dia, ao nosso brilho real.
Por Cris Vaccarezza

Quem disse que o amor precisa?

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Quem disse que o amor precisa de tempo? Ou que ele precisa tempo? Por mais impreciso que for?
Quantos casais que você conhece e estão juntos precisamente há anos, só por estar?
E quantos casais se conheceram e se reconheceram imprecisos e imprescindíveis, já na primeira troca de olhar?
Quem disse que amor precisa de tempo?
Amor precisa é de cumplicidade.
Amor precisa de querer a mesma coisa, de concordar com a escolha do outro, mesmo que para isso, precise ceder em alguns milímetros da própria convicção.
E se não houver convicção na escolha do outro, que haja cumplicidade suficiente para olhar nos olhos e explicas as suas razões. Cumplicidade para confiar no ponto de vista do outro.
Quem disse que o amor precisa de tempo?
Amor precisa de companheirismo. De mãos dadas. Mãos dadas de boa vontade, estendidas, emprestadas na necessidade do outro.
Mãos que se precisam dadas, que se desejam unidas que se sentem incompletas quando distantes umas das outras. Mãos que se queriam companheiras pelo tempo que vier.
Quem disse que o amor precisa de tempo?
Amor precisa de reciprocidade. De olhares que se cruzem e queiram ficar.
De olhares que não se interessem por nada além dos olhos da pessoa amada.
Olhos que se deem por querer, não que se esgueirem fortuitamente. Olhos que podem passear por aí, por ter a plena certeza de que por maiores que sejam os encantos outros tantos, maior é o bem querer que habita a lus dos olhos seus.
Quem disse que o amor precisa de tempo?
Ou de definição, ou de regras, ou de ordem? Quem disse que o amor conhece barreiras geográficas?
Quem disse que o amor conhece de física, se são metafisicas, as razões do amor?
Quem disse que o amor precisa de tempo? Tempo é relativo, já dizia o físico em sua poesia matemática. E deve ter pensado para consigo: Quem disse que o amor precisa de tempo?
O amor só precisa do tempo de se entregar, do tempo de um leve tocar de mãos, do tempo de aceitar, do tempo de amar, do tempo de ser do outro. Nada que relógios possam mensurar, ou ampulhetas limitar em suas frágeis paredes de vidro. Nenhum tempo que um minuto possa conter, ou que décadas de tédio possam estragar. Amor precisa do que transcende as horas e nem vê o tempo passar...
Amor precisa de entrega, de sintonia, de saudade, de lealdade;
Amor não precisa tempo. Amor não tem credo, cor ou idade.
Amor precisa é de vontade, de verdade, de mim e de você!
Por Cris Vaccarezza

Falta de Eventualidade (Uma certeza incerta)

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E se um dia você acordar com saudades de tudo o que foi?
Se algum dia, você se encontrar inexpelicavelemte querendo voltar
Voltar para todas as coisas que sabe racionalmente que não deram certo
Que provávelmnte jamais darão,
Mas que no peito resta uma pontinha de dúvida,
calada, súbita, incômoda, inconfessável...
uma pontinha de vontade de tentar outra vez?
Se em sua boca que hoje adoça com um outro mel,
no final de um beijo qualquer restar um travo de saudade
e se te der vontade de tentar outra vez?
Se você de repente tiver um desejo de reatar antigos laços?
De superar, reconstruir, reeerguer, tentar outra vez?
Você optaria por ir embora, dar a volta, arriscar, reviver?
Ou viveria nessa eterna dúvida amarga do ser ou não ser??
Eis a questão...
Se voltar poderia dar certo! Tantos laços...
Se superassem as mágoas, como uma fênix, renasceria mais forte.
Ou como a morte, seria um recomeço...
Se fcar, seria uma nova estrada, um caminho diferente, mas a saudade...
Ah, a saudade é traiçoeira. Tantos momentos vividos!
Será que ao revê-la, revendo-a quase todos os dias,
Essa brasa que ardeu um dia, não reavivará?
Será?
Será que o cheiro dos cabelos, um movimento qualquer,
um sorriso que esconde um mistério dos anos passados,
aviva a memória de um segredo vivido entre os dois...
E está feito! Cumplicidade, isso é árvore de raízes profundas!
É preciso que se tenha vivido muito no erro para ter a certeza da irrevogabilidade.
Pois uma vez escolhido outro destino, uma vez compradas novas passagens,
Outros passageiros embarcam no trem da sua vida.
Outros sonharam em chegar a um destino melhor.
E independente da incerteza à frente,
é preciso ter certeza da impossibilidade de voltar.
Impossibilidade não por "falta de eventualidade".
Por falta absoluta de vontade  mesmo...
O que mata as coisas, não é a incerta, mas a falta de vontade.
E assim, diante do silêncio estabelecido, no meio da madrugada, um lapso de dúvida me assalta:
Onde andará seu pensamento quando não está comigo. Em alguma saudade, talvez?
E eu te pergunto, diante desse teu olhar perdido...
E se um dia você acordar com saudades de tudo o que foi?
Você optaria por ir embora, dar a volta, arriscar, reviver?
Sim, porque se tiver que ir, eu entendo. Vai doer, mas vai passar...
Quero que sejas feliz, lembra?
E eu? Eu sobrevivo (acho). Só preciso saber antes de acontecer.
Antes que seja tarde demais pra voltar atrás...
Por Cris Vaccarezza

FLASH!!!

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Quantas vezes prendemos a respiração diante de uma câmera em busca do melhor ângulo, que revelará o (aparentemente) mais bonito, numa expectativa sem tamanho pelo espoucar de um flash: FLASH!! E a seguir tudo se apaga... Somos fascinados por flashes.
No entanto, se não focarmos na luz instantânea do flash, mas no contexto, no entorno, perceberemos que ela não ilumina, apenas explode, criando um ambiente propício para o efeito mágico acontecer, cria   um dia repentino, e nos cega por alguns segundos.
A luz do flash é útil na fotografia, mas também é ilusória, passageira, como uma alegria efêmera. Dessas alegrias de farmácia, que se vendem em comprimidos, em bares, ou se trafica por aí. Como esses amores líquidos que escorrem entre os dedos, esses amigos que se vão na primeira esquina da vida. Úteis na fotografia apenas.
Flashes confundem, desorientam, e além de não te guiarem a lugar algum, de repente, evanescem, se perdem no ar, e você retorna ao seu antigo estado de erraticidade, sozinho num mar de breu. 
Fuja dos flashes encantadores. Fuja do provisório, do insustentável, do irreal. Fuja da estática da fotografia, busque a vida real. Busque o dia a dia. É lá que a verdade se revela. Fuja dos flashes. Eles são ilusórios. 
Nada de definitivo acontece por segundos ou em segundos. A verdade leva tempo para acontecer, se baseia no encantamento, mas também na compreensão.
Tudo o que é verdadeiro, fortalece a cada dia, fortalece com as imperfeições. Tudo o que é verdadeiro, pode até nascer com um sorriso, mas é nas lágrimas, nos tropeços, nas dificuldades, que cresce e se solidifica. Flashes são lindos, mas não duram. Tudo o que é verdadeiro não acontece simplesmente, se perpetua na rotina de todo dia, como o sol.
Há dias em que não há sol, há dias em que tudo é céu nublado e frio. Há dias em que perdemos a fé. Mas o sol, mesmo distante está presente, mesmo encoberto está ali, mesmo obscurecido temporariamente pelas nuvens, ainda é e sempre será o sol. Sua luz é quente e mais dia menos dia, o verão retorna e você sente que sempre esteve protegida, pois o sol sempre esteve ali.
Flashes não, sua luz fria, artificial, não serve nem para iluminar o caminho, serve apenas para iluminar um instantâneo, fazer uma pose pra foto. E o que é uma foto, se não o eternizar no breve instante de um segundo? Nada... Fotos são a mera ilusão dos olhos. É no movimento, que as coisas se revelam, é no dia a dia que elas se realizam... Ou não.
Busque o sol, cuidado com os flashes.  Um amor que se apaga diante do breu das dificuldades, que esfria com o movimentar das fotos, com o surgimento das imperfeições, com a percepção dos defeitos do outro. Uma amizade que não se fortalece na dor, uma fé que não te ajuda a superar os espinhos, uma vida que não valha a pena ser vivida e lembrada, uma história que não mereça ser contada, jamais terá sido sol para alguém, apenas flashes.
Sejamos luz, mas luz verdadeira. Sejamos sóis, não apenas flashes!
Por Cris Vaccarezza

Daqui pra frente:

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Um anjo me contou:
Eis a sua profecia, minha pequenina:
Passarás pelo fogo e pela prova. Passarás pelo cárcere sem dever. Passarás pela violência, pelo abuso e pela dor. De tudo isso eu sei e você sabe. Mas de onde estiver, não poderei ainda te defender. Essa será a sua estrada. Eu trilharei a minha. É a lei da vida nesse chão. Essa é a lei da terra sob o sol. 
Peço apenas que não desistas. Se teus pés doerem, projeta teu olhar pro infinito, se perderes a fé, penses no futuro. Crê que Deus tudo sabe é que um dia os caminhos da vida nos reunirão. Tudo passará! Continua a jornada morro acima! 
Preciso que confies em mim e jamais desanimes. Vais esquecer quase tudo o que te digo hoje, mas preciso que não esqueças do que te direi agora:
És semente jogada em chão árido, terás de lutar para brotar e crescer. Munitos pés passarão inclementes sobre ti, quando sem notar a presença da roseira, muitas vezes, teus galhos fragilizaram, teu caule curvará e tuas folhas se aproximarão do chão. 
Mas se te reergueres, se suportardes as provas com afinco, se apesar da geada, não caíres na tentação de fenecer. Se apesar de tudo, floresceres e deres frutos bons, então já serás  árvore madura, robusta que nenhuma intempérie pode derrubar. 
Então,  no topo da encosta escarpada, encontrarás a paisagem tão sonhada que te alegrará a vista e o coração! E poderás descansar e me esperar.
Jamais desista, pequenina! Há sim um pote de ouro no final do arco-íris, mas o ouro não é da terra, é ouro do céu. E ouro do céu, minha pequena, não é matéria, é sentimento bom. Ouro do céu, é amor!!
Agora vá, e viva cada dia como se o ultimo fosse! Seja feliz apesar de tudo, minha pequena! 
Eu irei logo depois de você. Estarei a teu lado, escalando a mesma escarpa pelo lado contrário, teremos caminhos diversos, mas escolhas semelhantes. E se assim for, quando chegares ao topo, te reencontrarei, tomarei suas mãos nas minhas, seus lábios nos meus, apertarei seu coração contra o meu e jamais te deixarei.
- E como eu saberei que é você? Disse ela enfim.
- Pelas cicatrizes que ambos teremos, pelas escolhas, pela fé. Mas principalmente pelas semelhanças, são elas que nos reunirão. Nos reconheceremos pelos caminhos tortuosos que tivermos vencido para chegar ao alto da montanha.
Trilhando o mesmo caminho, teremos destino certo, um dia eu te reencontrarei, e você me reconhecerá ainda antes do primeiro beijo, pela sensação que causará quando a minha mão tocar a sua. Eu me encantarei por ti e seu sorriso me lembrará de casa, então vou roubar-te um beijo e aí você saberá que é pra sempre. 
Despediram-se com um longo abraço, um beijo terno e soltaram as mãos por algum tempo. 
- Até breve, anjo! Que a vida seja breve sem você!
- Até sempre, meu amor!!
Não esqueça, gritou ele para certificar-se de que ela o encontraria. O caminho é seu, e assim como o meu será escarpado, pois é uma subida, mas não desista!! Quando o caminho for nosso, a vida será um quadro de Monet, e tudo será paisagem, tudo será plano, paz e contemplação!!
Por Cris Vaccarezza
Em 21/05/2016

Que digam!

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Sei que dirão, os invejosos, mas você o conheceu ontem!
Mas é como se o conhecesse desde sempre.
Mas isso é só no começo, eles dirão.
Quem dera, todos os começos fossem assim.
Eles dirão que isso passa.
Mas eu também passarei, você também passará, e enquanto não passar, passarinhemos.
Eles dirão que é amor de micareta.
E quem disse que amor de micareta não dura?
Dirão que um dia eu descobrirei seus defeitos. 
Mas um dia, você também descobrirá os meus.
Eles dirão que é um sonho.
Digam o que quiserem, não quero acordar!
Um dia, eles dirão, ele esquecerá seu nome.
Impossível! Meu nome é exatamente igual ao seu.
Deixe que digam! Enquanto eles dizem, eu coleciono pétalas de rosas vermelhas, e os beijos que curam minha alma.
Por Cris Vaccarezza
Para Cris Amarante

Nàufrago

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Era alta madrugada, lutava há horas pela vida em seu pequeno barco à deriva no meio de um oceano agitado, numa tempestade que sacudia de um lado para o outro até as suas melhores convicções. Estava só, desde que o navio de certezas onde imaginava estar seguro, e que pretensamente levaria de norte a sul em segurança como fora planejado, simplesmente naufragara numa noite similar, dias atrás. E naquele cenário horrendo, sem água para dessedentar, sem alimento para o corpo ou a alma, com o coração ansioso e aflito, sentia-se chacoalhar impotente, ante a violência furiosa das ondas.
Não havia esperança. Estava no meio do nada. Tudo em torno era um imenso vazio. Nada via além de breu, as tempestades da vida, encobriram-lhe até mesmo o parco brilho das estrelas. Nem sol, nem lua cheia, nem esperança, nem nada. Agarrava-se desesperadamente a algumas latas d'agua que sobraram do desastre, e a um ultimo fio de fé e esperança.
Foi quando uma onda veio, bruscamente de maneira inesperada e golpeando-lhe por trás, fez perder o equilíbrio e bater o rosto contra a parede lateral do barco. Ainda em meio à desorientação, percebeu que a mochila que continha as derradeiras latas d'agua escapara-lhe das mãos. Guerreando contra a dor da pancada, tateou o interior do barquinho com as mãos amarrotadas, buscou naquela escuridão a alça de lona que poderia salvar-lha a vida. Já não lhe importava a dor, mas a necessidade de recuperar a água. Viu de relance, ao espremer os olhos, o que lhe pareceu um pedaço da mochila próximo à proa do barco, e esgueirou-se para alcançá-la, como se disso dependesse a própria vida. Lançou o corpo alquebrado num esforço hercúleo e com a ponta dos dedos apreendeu o tecido ensopado e escorregadio. Reuniu as últimas forças, e agarrou a mochila, trazendo-a a todo custo de encontro ao próprio peito, e acalentou-a, qual coisa preciosa e querida.
Mas as ondas incessantes não permitiam que mantivesse em equilíbrio, o corpo alquebrado e foi mais uma vez lançado junto com a mochila parcialmente para fora do barco. o objeto querido escapou-lhe dos braços, caindo no mar agitado, conseguiu manter firme uma ponta, e tentava recupera-la, pondo em risco a própria vida. A mochila ensopada, se tornava cada vez mais pesada pelas latas de aguas sugadas pelo mar. Feito uma âncora, pesava, puxava, ameaçava afundar. "Meu Deus, não posso mais, me ajuda!"
Desesperava, quase desistia, quando uma luz mais à frente chamou sua atenção. Em meio à chuva intensa, viu o que lhe pareceu o rosto de um ancião à luz tremula de um lampião. Um rosto preocupado e só isso! Não via nada além daquele rosto em meio à escuridão. Pareceu-lhe num relance um rosto amigo. Mas não tinha tempo para entender o que se passava. O que fazia um velho tão serenamente naquela situação? Que importava? Precisava recuperar a mochila e estendia os braços para mantê-la ao alcance.
Foi quando ouviu:
- Deixe ir! Solte-a!
Como? Era um louco! Estava louco! Soltar a única coisa que lhe valeria a redenção, o único bem que tinha, a vida que lhe sobrava no mar revolto? Jamais faria isso!
- Agarre-se ao barco! Não se afogue! Deixe-a ir!!
A mochila escapava, pesava, ameaçava carregar com sigo o naufrago, mas ele se esgueirava mais e mais em direção à proa, tentando detê-la. Que louco! Era alucinação de sua cabeça! Que faria um velho em meio àquela tempestade? E se fosse um velho de verdade, por que não tentaria ajudar? Ficava de lá, a grita impropérios, a dar sugestões inaceitáveis. E lutava até não mais suportar.
Houve um instante em que as ondas se agitaram a tal ponto, enchendo o barquinho de água, que ele teve que fazer a opção entre agarra-se ao barco ou à mochila.
- É esse o momento da decisão! Largue a mochila! Fique no barco!
Não havia outra escolha, a mochila escapava-lhe, resignou-se ao destino de morrer de sede ante ao sol inclemente que não tardaria a chegar. Deixou ir a mochila. Em prantos, deslizou o corpo para dentro do barco e exausto, decidiu entregar-se à própria falta de sorte. Esqueceu-se da tempestade, do velho do mar, das ondas, e desfaleceu, vencido pela exaustão, que fosse o que tivesse de ser!
Quando despertou, percebeu-se aportado numa praia, o barco fora arrastado até ficar seguro na areia, e ao seu lado, havia um bilhete:
- Arrastei seu barco até a areia, mas sou velho e não pude carregá-lo até em casa. Moro no farol abandonado à direita. Quando acordar, venha tomar um café. Que bom que largou a mochila. Se caísse do barco, teria perdido a vida, por não perceber que é bem perto da praia que as ondas mais se agitam e formam o quebra mar. No escuro da noite em meio à tempestade, ninguém vê. Ainda assim às vezes, tudo o que precisamos é deixar ir, e a vida se encarrega de nos conduzir a um destino melhor.
Limitou-se a sorrir e agradecer. Era mesmo um sábio conselho!
Por Cris Vaccarezza


Se depender de mim...

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Se depender de mim, quero ser motivo da sua alegria, não apenas hoje, mas todos os dias.
Quero ser força nos momentos de luta, e fé, nos momentos de dúvida.
Se depender de mim, quero ser mãos dadas e sorrisos de cumplicidade. Mas também quero ser ombro, se acaso precisar. 
Se depender de mim, quero ser alegria, inspiração para o dia e mansidão para quando a noite chegar.
Se depender de mim, quero ser namorada, sua amada, sua parceira, companheira e confidente. 
Quero ser na sua vida uma semente de amor, em meio a esse mar de desilusão que é o mundo lá fora. 
 Quero te conhecer e te aprender todos os dias. Quero te fazer feliz, e ser feliz, com a sua alegria.
Quero que as semelhanças sejam âncora nos momentos de divergência, e que a harmonia seja uma constante na vida da gente, quer estejamos juntos ou eventualmente distantes.
Que sejamos fiéis, mais acima de tudo, que sejamos leais, um ao outro e às nossas escolhas, enquanto escolhermos ser.
E que juntos, possamos ser ponto de partida e porto de chagada um para o outro. 
Se depender de mim, assim será.
Por Cris Vaccarezza


Enfim, dezoito!

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Hoje pela manhã, assim que a vi voltar correndo do guichê, sacudindo entre as mãos a tão espetada carteira de habilitação, soube que meu coração experimentaria dali pra frente uma série de pequenos sobressaltos típicos de quem assiste, impotente, o crescimento iminente. Sim, ela cresceu!
Ela, que fizera suas provas com afinco, e passara em todas sem reprovação, ansiava há mais de um mês por essa chegada.  E eu sabia que se aventuraria em seu novo brinquedo, a descobrir segredos, pelos caminhos da vida. Era o imperativo do porvir.
E assim, como foi previsto, la se foi ela em seu carrinho vermelho. Traçou a rota e seus planos e foi, rumo à independência.
E lá se foi meu coração aflito e consciente da necessidade imperativa de crescer.
E lá se foi ela comer uma pizza com os amigos, e lá se foi embora o meu apetite.
E lá se foi ela com seu coração contente de liberdade. É aquele bebê que um dia rastejou, engatinhou, andou e correu, agora desdobra cuidadosamente suas asas de borboleta e as sacode graciosamente no ar, arriscando os primeiros pequenos voos de sua vida. E por assim dizer, lá se vai...
E aqui fica um coração de mãe aflito e tenso, um par de cotovelos vermelhos e um nariz colado ao vídeo da janela, num ansiar de ver mais além... Mas ela se foi, e como é cumprido o destino, fiquei, mas confiante de que entre mim e ela, há um Pai maior que toma conta.
Vai com Deus, crescer enfim, minha menina! 
Por Cris Vaccarezza
26/02/2016

Regresso

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Todas as coisas estão mortas em torno de mim.
Todas as coisas estão mortas e sepultadas em seus devidos lugares. Há dias.
Nesse lar, habitam apenas coisas, aqui já não habita mais vida.
Todas as coisas repousam inertes, exatamente como as deixei.
E todas as portas, permanecem cerradas. Eu mesma as cerrei.
Precisei partir de repente. Cerrei os olhos e as malas, mudei os planos, calcei as sandálias, e parti há muito tempo atrás. E eu que um dia imaginei que não as pudesse deixar, percebi que não haveria mala que as pudesse levar. Não caberiam em meu novo pequeno mundo emprestado. Ficaram sem protestar.
Aqui, ficaram as coisas sepultadas, as roupas dobradas, o cheiro do guardado, e grande parte de mim, que já não reconheço.
Vejo, voltando agora, que boa parte das coisas pelas quais briguei, pelas quais lutei, pelas quais sofri, são apenas coisas, e não puderam me acompanhar na nova jornada.
Hoje percebo que muito do sentido que lhes dei, estava mais em mim, que nelas...
Hoje percebo que eu as animei, eu as amei, mas jamais fui amada por elas. São apenas coisas.
E não são Minhas, nada há de meu nelas. 
Todas as coisas que estão mortas em sua ordem fria e tradicional de casa fechada e arrumada, estão mortas por que nunca viveram além dos meus sonhos. Eu as vivi, como se importantes fossem.... Mas não são!
Eu estou viva, e posso mudar, e posso partir, e posso voltar. Elas não... Repousam caídas, inanimadas exatamente onde as deixei.
Por Cris Vaccarezza
25/02/2016

Romântica

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Exausta, após um dia estressante no escritório, ela recebe uma ligação do cara. Não, não é qualquer cara, é o cara que ela escolheu para ser seu, muito embora ele, bem, digamos  que ele não pense assim.
Que surpresa! Quanto tempo! E sente as únicas partes do seu ser latentes há longo, acordarem após longa hibernação... Não! Ela não é dessas, ela é daquelas que ainda se guardam para o cara que elas imaginam ser o certo. E agora, inesperadamente, após quanto tempo? Um século de abstinência? Ele lembrou-se dela! Aleluia!
Hoje? Barzinho? Esticar?! ... Estou exausta! Meu corpo só pede cama... Shhhhhhiii! Nem uma palavra sobre isso, grita aquela parte de seu ser praticamente esquecida já há muito tempo pela ausência! Ela hesita... Sabe que o correto seria dizer não! Mas ora bolas, há quanto tempo sequer beijava na boca! Não, ela não é dessas, lembra? Ela aguarda o príncipe encantado! E olha que vale a pena, afinal, olha ele ligando depois de um ano e meio! Demorou, mas lembrou da princesinha aqui!
Certo então! As 10:30... Mas 10:30 não é coisa de quem quer só sexo? Quem quer pensar nisso agora? Grita das entranhas, a esquecida! Liga pra depiladora urgente!!
E ela liga. Como assim não tem horário?
São cinco e meia de uma terça feira... Eu sei que tem que agendar, mas pelo amor de Deus... Amiga, eu disse pelamordeDeus, me consegue um horário... Tá, eu espero....
E então são 7:05 e eu aqui, mofando nessa recepção, aguardando uma depiladora que a essa hora, já exausta, quase me arranca a alma junto com os pelos... Tá bem! Estava aposentada, mas não precisa maltratar. Saio de lá sem muita certeza de poder me sentar no dia seguinte, mas isso era algo a se pensar no dia seguinte, hoje não! Hoje é fervo!! Finalmente algum relaxamento. Quase em cima da hora, corro pra casa, me enfio no banho, depois na escova, depois na hidratação, depois na primeira e mais desconfortável calcinha sexy, aquela que estava no fundo da gaveta há um tempão, aguardando o dia. E o dia é hoje!!!
Enfio uma calça jeans colada na alma, e uma blusa discreta para não parecer (parecer não) para não revelar que quero dar. Mas quero dar! É tudo o que eu mais quero! Dar!! E dar pro  homem que eu acredito que seja o cara. Minha mãe me ensinou que não é certo dar pra qualquer um! Mais que isso, ela me ensinou, que não devo demonstrar que quero dar. Mocinha é cínica, mentirosa, não demonstra suas intenções. Mas o que há de errado com as Minhas intenções? Por acaso não são  também as dele? Homem pode! Homem pode tudo, minha filha. 
Nove e meia e o cabelo já está pronto, mais quarenta minutos de maquiagem. Quase na hora, não vai dar pra comer. Mas quem quer comer? É outra, a fome que sinto agora! Quero beijo na boca, quero abraço apertado, quero que ele me proteja do mundo em seus braços pelo menos essa noite. 
Dez e vinte, hora de descer, com a calcinha desconfortavelmente sexy machucando uma barbaridade por baixo da calça colada. Olho para a cama que lânguida sob o edredom me faz um último apelo: fica! Que tal uma noite tranquila com sua série preferida e pipoca? Não! Isso todo dia! Isso é um ano e meio! Hoje é fervo com ele! Com o cara. Adeus! Hora de descer!
Dez e quarenta e nada do moço... Onze e vinte e cinco e nada... Passa pela cabeça que os melhores barzinhos já estão bombando e ela ali, de estátua na porta do prédio, esperando o cavalo branco parar na porta e convida-lá a subir. Mas até às onze e quarenta e sete, nada, ela decide ligar... Oi lindo! E aí, tá chegando? Oi? Como assim esqueceu?! Balada com os amigos? .... ... .... Poxa! Me arrumei toda! .... Zzzzz .... (Que decepção! Uma lágrima furtiva ameaça pular da pálpebra meticulosamente maquiada. Não ouse borrar minha maquiagem! pensa já correndo o dedo pelo canto do olho para evitar o estrago) ... Está vindo? Tá, tô esperando. 
Uma hora depois, cruza o príncipe encantado os portais da portaria, não desceu, não baixou o vidro, não abriu porta nem nada. Fez um gesto de "boora!" Lá de dentro, e ela apressou o passo, tropeçou de leve na afobação e quase torceu o pé, mas ele nem percebeu. Lançou-lhe um "e aí?" desinteressado e nem
Um selinho se deu ao trabalho de lhe dar. 
- Pra que barzinho nós vamos? 
Barzinho?! Tá tarde! Vim de lá agora! Vamos direto ao assunto, não é, gata?
 -Hã?? Direto pro
Motel?! 
-Exatamente! 
Deixa o cara! Gritava a pequena parte esquecida de seu corpo! E ela concordava pois carecia de carinho e por isso cedia. Lembrava-se da mãe amarga, que lhe dizia que um
Homem da carinho para ter sexo e uma mulher da sexo, para ter carinho. Sábia Mamae! Sim, era exatamente isso! Aquela parte esquecida do seu corpo, não era mentalmente um órgão sexual, mas uma alma carente, uma vida ansiosa por preenchimento.
Queria que aquela fosse uma noite especial. Por isso cooperava! Depois de tanto tempo de uma fidelidade ridícula, queria tê-lo novamente.
Ele, por sua vez, estava ansioso para ver a luta de MMA na tevê, que começaria em uma hora e meia. "Como essa vadia", pensou, "pago a conta, largo essa mocreia em casa e volto para assistir a luta com a rapaziada, ja mais leve!" E assim foi feito! 
Pra ele, uma descarga, para ela, nada mais que suar a escova que sofrera para fazer às pressas horas atrás. Nem um beijo na boca, nenhuma preliminar. Até a parte que antes ansiava, agora gritava que dor. 
Maldita hora! Não lembrava que ele era assim tão ruim! Lamentava ter recusado o convite da cama e desprezado o edredom. Certamente teria com eles muito o que conversar na manhã seguinte quando voltasse para casa.
Manhã seguinte que nada, enquanto se recompunha da desfeita dolorosa e sem prazer, buscou o corpo do cara bacana, mas ele já tinha ido lavar-se no banheiro. E a ela, o que restara da quimera da noite perfeita? O vácuo... A ausência... Nada! Catar as roupas, qual Adão e Eva, envergonhados de seu prazer. Expulsa do paraíso.
Chegou em casa, despejada como mercadoria recém lançada fora do caminhão. Arrasada, acendeu um cigarro, tirou a maldita calcinha fio dental e deitou-se em prantos sobre o edredom. Que merda!!! Que merda ser sempre a escolhida!! Que merda! Que merda!! Era como se sentia... Chorou até o amanhecer...
Dia novo, vida nova! Ele que fosse feliz! Tinha que se amar! Daquele dia em diante, trabalharia mais, seria mais família, mais obras sociais, mais amigos e menos relacionamentos. Esqueceria aquilo. 
Tempo passou. E não é que ela conseguiu mesmo? Enfiou a cara nos livros e no trabalho, ajudou a todos o mais que pode, a ponto de quase estafar para não ter que pensar no coração despedaçado. E o relogio foi girando...
Até mais de um ano depoisy, do nada, exausta, após um dia estressante no escritório, ela recebe uma ligação do cara. Não, não é qualquer cara, é o cara que ela escolheu para ser seu, muito embora ele, bem, digamos  que ele não pense assim.
Que surpresa! Quanto tempo!
Por Cris Vaccarezza
Escrito em 14/02/2016 Valentine's day 

 
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