Enfim, dezoito!

0 comentários



Hoje pela manhã, assim que a vi voltar correndo do guichê, sacudindo entre as mãos a tão espetada carteira de habilitação, soube que meu coração experimentaria dali pra frente uma série de pequenos sobressaltos típicos de quem assiste, impotente, o crescimento iminente. Sim, ela cresceu!
Ela, que fizera suas provas com afinco, e passara em todas sem reprovação, ansiava há mais de um mês por essa chegada.  E eu sabia que se aventuraria em seu novo brinquedo, a descobrir segredos, pelos caminhos da vida. Era o imperativo do porvir.
E assim, como foi previsto, la se foi ela em seu carrinho vermelho. Traçou a rota e seus planos e foi, rumo à independência.
E lá se foi meu coração aflito e consciente da necessidade imperativa de crescer.
E lá se foi ela comer uma pizza com os amigos, e lá se foi embora o meu apetite.
E lá se foi ela com seu coração contente de liberdade. É aquele bebê que um dia rastejou, engatinhou, andou e correu, agora desdobra cuidadosamente suas asas de borboleta e as sacode graciosamente no ar, arriscando os primeiros pequenos voos de sua vida. E por assim dizer, lá se vai...
E aqui fica um coração de mãe aflito e tenso, um par de cotovelos vermelhos e um nariz colado ao vídeo da janela, num ansiar de ver mais além... Mas ela se foi, e como é cumprido o destino, fiquei, mas confiante de que entre mim e ela, há um Pai maior que toma conta.
Vai com Deus, crescer enfim, minha menina! 
Por Cris Vaccarezza
26/02/2016

Regresso

0 comentários
Todas as coisas estão mortas em torno de mim.
Todas as coisas estão mortas e sepultadas em seus devidos lugares. Há dias.
Nesse lar, habitam apenas coisas, aqui já não habita mais vida.
Todas as coisas repousam inertes, exatamente como as deixei.
E todas as portas, permanecem cerradas. Eu mesma as cerrei.
Precisei partir de repente. Cerrei os olhos e as malas, mudei os planos, calcei as sandálias, e parti há muito tempo atrás. E eu que um dia imaginei que não as pudesse deixar, percebi que não haveria mala que as pudesse levar. Não caberiam em meu novo pequeno mundo emprestado. Ficaram sem protestar.
Aqui, ficaram as coisas sepultadas, as roupas dobradas, o cheiro do guardado, e grande parte de mim, que já não reconheço.
Vejo, voltando agora, que boa parte das coisas pelas quais briguei, pelas quais lutei, pelas quais sofri, são apenas coisas, e não puderam me acompanhar na nova jornada.
Hoje percebo que muito do sentido que lhes dei, estava mais em mim, que nelas...
Hoje percebo que eu as animei, eu as amei, mas jamais fui amada por elas. São apenas coisas.
E não são Minhas, nada há de meu nelas. 
Todas as coisas que estão mortas em sua ordem fria e tradicional de casa fechada e arrumada, estão mortas por que nunca viveram além dos meus sonhos. Eu as vivi, como se importantes fossem.... Mas não são!
Eu estou viva, e posso mudar, e posso partir, e posso voltar. Elas não... Repousam caídas, inanimadas exatamente onde as deixei.
Por Cris Vaccarezza
25/02/2016

Romântica

0 comentários
Exausta, após um dia estressante no escritório, ela recebe uma ligação do cara. Não, não é qualquer cara, é o cara que ela escolheu para ser seu, muito embora ele, bem, digamos  que ele não pense assim.
Que surpresa! Quanto tempo! E sente as únicas partes do seu ser latentes há longo, acordarem após longa hibernação... Não! Ela não é dessas, ela é daquelas que ainda se guardam para o cara que elas imaginam ser o certo. E agora, inesperadamente, após quanto tempo? Um século de abstinência? Ele lembrou-se dela! Aleluia!
Hoje? Barzinho? Esticar?! ... Estou exausta! Meu corpo só pede cama... Shhhhhhiii! Nem uma palavra sobre isso, grita aquela parte de seu ser praticamente esquecida já há muito tempo pela ausência! Ela hesita... Sabe que o correto seria dizer não! Mas ora bolas, há quanto tempo sequer beijava na boca! Não, ela não é dessas, lembra? Ela aguarda o príncipe encantado! E olha que vale a pena, afinal, olha ele ligando depois de um ano e meio! Demorou, mas lembrou da princesinha aqui!
Certo então! As 10:30... Mas 10:30 não é coisa de quem quer só sexo? Quem quer pensar nisso agora? Grita das entranhas, a esquecida! Liga pra depiladora urgente!!
E ela liga. Como assim não tem horário?
São cinco e meia de uma terça feira... Eu sei que tem que agendar, mas pelo amor de Deus... Amiga, eu disse pelamordeDeus, me consegue um horário... Tá, eu espero....
E então são 7:05 e eu aqui, mofando nessa recepção, aguardando uma depiladora que a essa hora, já exausta, quase me arranca a alma junto com os pelos... Tá bem! Estava aposentada, mas não precisa maltratar. Saio de lá sem muita certeza de poder me sentar no dia seguinte, mas isso era algo a se pensar no dia seguinte, hoje não! Hoje é fervo!! Finalmente algum relaxamento. Quase em cima da hora, corro pra casa, me enfio no banho, depois na escova, depois na hidratação, depois na primeira e mais desconfortável calcinha sexy, aquela que estava no fundo da gaveta há um tempão, aguardando o dia. E o dia é hoje!!!
Enfio uma calça jeans colada na alma, e uma blusa discreta para não parecer (parecer não) para não revelar que quero dar. Mas quero dar! É tudo o que eu mais quero! Dar!! E dar pro  homem que eu acredito que seja o cara. Minha mãe me ensinou que não é certo dar pra qualquer um! Mais que isso, ela me ensinou, que não devo demonstrar que quero dar. Mocinha é cínica, mentirosa, não demonstra suas intenções. Mas o que há de errado com as Minhas intenções? Por acaso não são  também as dele? Homem pode! Homem pode tudo, minha filha. 
Nove e meia e o cabelo já está pronto, mais quarenta minutos de maquiagem. Quase na hora, não vai dar pra comer. Mas quem quer comer? É outra, a fome que sinto agora! Quero beijo na boca, quero abraço apertado, quero que ele me proteja do mundo em seus braços pelo menos essa noite. 
Dez e vinte, hora de descer, com a calcinha desconfortavelmente sexy machucando uma barbaridade por baixo da calça colada. Olho para a cama que lânguida sob o edredom me faz um último apelo: fica! Que tal uma noite tranquila com sua série preferida e pipoca? Não! Isso todo dia! Isso é um ano e meio! Hoje é fervo com ele! Com o cara. Adeus! Hora de descer!
Dez e quarenta e nada do moço... Onze e vinte e cinco e nada... Passa pela cabeça que os melhores barzinhos já estão bombando e ela ali, de estátua na porta do prédio, esperando o cavalo branco parar na porta e convida-lá a subir. Mas até às onze e quarenta e sete, nada, ela decide ligar... Oi lindo! E aí, tá chegando? Oi? Como assim esqueceu?! Balada com os amigos? .... ... .... Poxa! Me arrumei toda! .... Zzzzz .... (Que decepção! Uma lágrima furtiva ameaça pular da pálpebra meticulosamente maquiada. Não ouse borrar minha maquiagem! pensa já correndo o dedo pelo canto do olho para evitar o estrago) ... Está vindo? Tá, tô esperando. 
Uma hora depois, cruza o príncipe encantado os portais da portaria, não desceu, não baixou o vidro, não abriu porta nem nada. Fez um gesto de "boora!" Lá de dentro, e ela apressou o passo, tropeçou de leve na afobação e quase torceu o pé, mas ele nem percebeu. Lançou-lhe um "e aí?" desinteressado e nem
Um selinho se deu ao trabalho de lhe dar. 
- Pra que barzinho nós vamos? 
Barzinho?! Tá tarde! Vim de lá agora! Vamos direto ao assunto, não é, gata?
 -Hã?? Direto pro
Motel?! 
-Exatamente! 
Deixa o cara! Gritava a pequena parte esquecida de seu corpo! E ela concordava pois carecia de carinho e por isso cedia. Lembrava-se da mãe amarga, que lhe dizia que um
Homem da carinho para ter sexo e uma mulher da sexo, para ter carinho. Sábia Mamae! Sim, era exatamente isso! Aquela parte esquecida do seu corpo, não era mentalmente um órgão sexual, mas uma alma carente, uma vida ansiosa por preenchimento.
Queria que aquela fosse uma noite especial. Por isso cooperava! Depois de tanto tempo de uma fidelidade ridícula, queria tê-lo novamente.
Ele, por sua vez, estava ansioso para ver a luta de MMA na tevê, que começaria em uma hora e meia. "Como essa vadia", pensou, "pago a conta, largo essa mocreia em casa e volto para assistir a luta com a rapaziada, ja mais leve!" E assim foi feito! 
Pra ele, uma descarga, para ela, nada mais que suar a escova que sofrera para fazer às pressas horas atrás. Nem um beijo na boca, nenhuma preliminar. Até a parte que antes ansiava, agora gritava que dor. 
Maldita hora! Não lembrava que ele era assim tão ruim! Lamentava ter recusado o convite da cama e desprezado o edredom. Certamente teria com eles muito o que conversar na manhã seguinte quando voltasse para casa.
Manhã seguinte que nada, enquanto se recompunha da desfeita dolorosa e sem prazer, buscou o corpo do cara bacana, mas ele já tinha ido lavar-se no banheiro. E a ela, o que restara da quimera da noite perfeita? O vácuo... A ausência... Nada! Catar as roupas, qual Adão e Eva, envergonhados de seu prazer. Expulsa do paraíso.
Chegou em casa, despejada como mercadoria recém lançada fora do caminhão. Arrasada, acendeu um cigarro, tirou a maldita calcinha fio dental e deitou-se em prantos sobre o edredom. Que merda!!! Que merda ser sempre a escolhida!! Que merda! Que merda!! Era como se sentia... Chorou até o amanhecer...
Dia novo, vida nova! Ele que fosse feliz! Tinha que se amar! Daquele dia em diante, trabalharia mais, seria mais família, mais obras sociais, mais amigos e menos relacionamentos. Esqueceria aquilo. 
Tempo passou. E não é que ela conseguiu mesmo? Enfiou a cara nos livros e no trabalho, ajudou a todos o mais que pode, a ponto de quase estafar para não ter que pensar no coração despedaçado. E o relogio foi girando...
Até mais de um ano depoisy, do nada, exausta, após um dia estressante no escritório, ela recebe uma ligação do cara. Não, não é qualquer cara, é o cara que ela escolheu para ser seu, muito embora ele, bem, digamos  que ele não pense assim.
Que surpresa! Quanto tempo!
Por Cris Vaccarezza
Escrito em 14/02/2016 Valentine's day 

 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...