Ninho

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Era uma tarde de quinta, (e uma angústia de primeira, parecia lhe sufocar a alma) meio daquela semana em que a sexta feira é sonho de consumo. Meio de uma semana onde a sexta feira é momento de parar, há semanas, mas ninguém para! 
Embora fosse inverno, quis sentar-se lá na sebe, sob o pergolado, sob a florida trepadeira.
Pôs a velha chaleira no fogo, dispôs o pó de café, do jeito amarfanhado que sabia fazer café, pegou uma xícara, o velho computador e rumou para a varanda.
Como envelhecera nesses longos anos longe... a criança que sempre habitara seu coração, emudecera nesses anos, e agora a contemplava meio desconfiada, a certa distância. Lembrou do dia em que decidiu romper com essa criança, parar de sonhar e "levar a vida a sério". 
Como envelhecera... seus olhos cansaram de não querer ver toda aquela beleza que sempre existiu ali, do lado de fora. Toda aquela beleza que acenava para ela ao sabor do vento todos os dias na varanda querida de sempre... mas ela teimou em não ver.
Sentou-se atras da xícara, e observou a fumaça dançando, libertar-se do líquido negro contido na xícara de café ... em silêncio, apenas observou em volta. Shhhhhhhhiiiiiii ... Silêncio! Sem toque de telefone, sem "terra chamando!!", sem "tem que ser agora!!" 
Não, droga! Não tem que ser agora!! 
Isso sim, tem que ser agora! Sentir, respirar!!! Ouvir a natureza cantar seus hinos de paz! Existir tem que ser agora!!!
Olhou em volta e finalmente pode ver. Após o longo silêncio desses anos em que a vida se resumira a tatear mecanicamente os corredores, de uma sala para outra, de um escritório para outro, de um dilema para outro, de um problema para outro... Agora finalmente pode sentir. Abriu amorosamente o velho notebook. 
Seus dedos outra vez encontravam o teclado, não como um tamborilar numérico, mas como um acariciar palavras...
Timidamente ... e deixou-se sentir a aura daquele lugar outra vez.
Primeiro uma ideia na mente, 
Vaga... poética
Alguma coisa dita metaforicamente...
Depois a memória do mecaniciscmo, uma mensagem que chega pro Whatsaapp, silêncio!! Deu- se ao luxo de mais alguns instantes. Apenas alguns minutos teimosamente negados aos afazeres rotineiros, prazerosamente dedicados à velha tela fria. 
Dedos vacilando entre tantas letras...
Na desordem cartográfica do cotidiano, desaprenderam a subjetivar, a ser poesia
Sentia-se assim, como alguém se despe pela primeira vez frente a uma  pessoa nova, de novo, e se sente desnuda como na primeira vez.
Assim se sentia, tímida, diante do amigo de tantas noites.
O velho notebook, tão acostumado a ser caderno de poesias, virara um fardo profissional, virara realmente apenas um bloco de notas, compromissos e rotinas.
Os pássaros que fervilhavam sua alma, estiveram engaiolados, como na infância.
As borboletas de seu estômago, estiveram anestesiadas pela futilidade do cotidiano.
Há algum tempo, tivera que abandonar o jardim, e só agora a alma voltava ao velho jardim.
Os dedos foram se tornando mais rápidos, as palavras emudecidas pelo "preciso ser mais objetiva" foram saltando aos poucos sozinhas para o papel virtual daquela tela branca, e as lágrimas, caladas e contidas sabe-se lá por que, talvez de saudade, finalmente brotaram, regando o velho jardim.
E ela se sentiu rio, cheio, transbordando, fecundando às margens de sua alma, outra vez.
Sentiu o cheiro das flores, e o canto da rolinha "fogo-pagô", um casal de pequenos pássaros bicudos que fazia morada ali. Notou o zumbir do besouro, e as asas velozes do beija Flor, já cansado da jornada do dia.
Até a velha borboleta monarca retornou, com seu voo gracioso por sobre o jasmim:
Enfim, já eram quase 6 da tarde, os pássaros voavam desaparecendo nos galhos das palmeiras, anoitecia, e ela pode enfim, voltar ao seu ninho outra vez.
(Por Cris Vaccarezza)

A vida

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Morria

Morria de medo

Morria de medo da vida

Morria de medo da vida que deixava

Morria de medo da vida que deixava de viver...

Todos os dias...

Morria

Morria de medo

Morria de medo da morte

Mas também morria de medo da sorte

 Mas também morria de medo da sorte de ter e ter que deixar

Morria 

Morria de medo da ventura 

Mas também temia a desventura de ter que aventurar-se 

Temia a vida e a morte

Temia a reves e a sorte, 

Temia ter e perder

Temia a mudança...

Mas como amava a dança,

Mesmo temendo se punha a dançar

Mesmo temendo se punha a dançar a ciranda da vida

Morrendo de medo de ter e perder...

A vida 

(Por Cris Vaccarezza)


Sobre a dor

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Sim, a dor existe.
Não se pode duvidar
Às vezes chega de repente,
Chega sem avisar.
Às vezes é uma dor física
Outras é emocional 
Às vezes é dor de uma perda
Outras é uma baita dor de canal
Às vezes é uma dor de ida,
Como a morte de alguém
Outras é dor de chegada
Como o nascimento de um neném 
Não importa o motivo 
Nem a intensidade
Não importa se a dor é aguda
Ou se se acompanha desde a mais tenra idade.
Não importa se é uma dor de parto
Ou se é a dor de uma saudade
O que importa é que por mais sentida
Por mais dorida que seja a sua dor
Um dia ela se vai, do mesmo jeito que chegou!
Por Cris Vaccarezza

Sobre a dor

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Sim, a dor existe.

Não se pode duvidar

Às vezes chega de repente,

Chega sem avisar.

Às vezes é uma dor física

Outras é emocional 

Às vezes é dor de uma perda

Outras é uma baita dor de canal

Às vezes é uma dor de ida,

Como a morte de alguém

Outras é dor de chegada

Como o nascimento de um neném 

Não importa o motivo 

Nem a intensidade

Não importa se a dor é aguda

Ou se se acompanha por anos

Não importa se é uma dor de parto

Ou se é a dor de uma saudade

O que importa é que por mais sentida

Por mais dorida que seja a sua dor

Um dia ela se vai, do mesmo jeito que chegou!

Por Cris Vaccarezza


Justiça Humana

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Ah, a justiça é um termo tão amplo...
Tão torpe quando depende apenas do juízo do homem
tão cega, quando esse homem se afats da vontade de Deus...
Ah, essa justiça tão humana!
Quem dera houvesse justiça nesta terra sob o sol,
quem dera fosse um mundo justo!
Ninguém precisaria clamar, quero justiça!
ninguém se sentiria injustiçado.
Mas aqui quem menos brada, é tido como burro.
Quem menos revida, é tido como idiota.
Os mansos, são tomados por covardes.
Os pacíficos, são vistos como lerdos.
Os lobos vestem-se de cordeiros,
e os cordeiros, vão sendo surrupiados às centenas.
O pastor, parece estar perdido olhando borboletas,
enquanto o lobo infiltra-se no rebanho
a mugir como se ovelha fosse.
Pobres dos tolos que se encantam com o que reluz
e esquecem o quanto o ouro é traiçoeiro
por um punhado de moedas vis,
Judas traiu com um beijo,
vendeu sua alma e por culpa matou seu corpo,
Mas trancou a consciência em um cativeiro.
Ah, pobres dos que temem a justiça do homem.
Pobres os que a invocam em busca do que não lhes é de direito.
Podem satisfazer os desejos do corpo, mas apodrecem os valores da alma
Um dia, quando o tempo for chegado, verão que o ouro fica com a carne,
tesouro, só o da alma, que ladrão não rouba
e justiça nenhuma usurpa ou restitui.
Não temam a justiça dos homens, temam o juízo de Deus!
É por essa lei que sereis julgados no fim de seus dias
E onde está escrita a lei de Deus?
Na sua própria consciência!
Por Cris Vaccarezza

Para você que não sabe!

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Você, que ocupa injustamente um posto que não é seu!
Você que deixa que a ambição fale mais e mais alto ao seu coração!
Você, que não vê pela frente, valores outros que não os seus;
E que imagina que haverá gavetas em seu caixão.
Você que passaria por cima de tudo e de todos para chegar onde quer;
Você, que se imagina muito inteligente,
mas esquece que o tempo passa e a velhice chega pra todos num instante qualquer.
Você que acha que pode levar vantagem em tudo.
Você, que imagina que pode semear ódio e colher traquilidade.
Você, que despresa o valor da família e esquece que o mundo gira.
Você que aponta o dedo. Um dedo para o outro, quatro contra si.
Você que com ferro fere. Você... Você bem sabe que é você!
Mas se não sabe, ou finge não saber, fique então sabendo
Minha arte é a poesia, minha arma é a flor,
meu estandarte é a fé em Deus,
e minha linguagem é o amor!
Você é livre e tudo pode.
Como dizia São Paulo: " Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém!"
Mas como convém a um amigo, cabe advertir com muita calma:
Você pode arruinar minha vida,
ferir minha pele, achincalhar meu nome,
Você pode até destruir meu corpo,
mas jamais conseguirá aprisionar minha alma!
Por Cris Vaccarezza

Infinito (Ampersand)

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Viu o papel vermelho onde ele havia desenhado um coração, e dentro dele, desenhara, com sua caligrafia perfeita, seus nomes iguais unidos por um ampersand na horizontal,
que simbolizava além de união, o infinito.
Cris & Cris, assim se definiam.
Onze meses de namoro, quase um mês de noivado.
Casamento marcado para dali a oito meses
e a promessa de uma vida inteira a frente, juntos.
Adjacente ao cartão, vinha um buquê de rosas vermelhas
mais onze rosas Nicole, de face exterior branco e interior rubro.
O cartão trazia lindas palavras e juras de amor,
Almoçaram num lugar tranquilo e aconchegante.
Desde a hora que ele a recebeu no estacionamento,
abrindo como sempre a porta do carro para que ela descesse,
puxando docemente a cadeira para que ela sentasse,
fazendo-lhe a corte, como sempre,
como se ela fosse seu melhor presente.
Conversaram sobre a vida, família e amenidades.
Tiveram um intervalo de almoço tão agradável...
Um verdadeiro happy hour no meio de seus dias atribulados
Tomaram suco, claro! Era um dia comercial.
Mas degustaram a refeição e a companhia, como se sábado fosse!
Tantas emoções reunidas no intervalo de uma hora.
Sessenta minutos recheados de paz e tranquilidade.
Como se ao cerrar a pesada porta do restaurante,
tivessem deixado os problemas do lado de fora...
Despediram-se com um beijo,
quando ele novamente abriu a porta do carro para que ela subisse
e se foram de volta às suas agendas apertadas.
Mais tarde, ela ainda guardava a doçura do mel dos olhos dele.
E a lembrança do papel vermelho onde ele havia desenhado um coração,
e dentro dele desenhara com sua caligrafia perfeita
Seus nomes iguais unidos por um ampersand na horizontal,
que simbolizava além de união, o infinito.
Infinito, como o coração desenhado na árvore que ela sonhou na infância!
Por Cris Vaccarezza
Para Cris Amarante

Empatia

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Às vezes, estamos diante de uma decisão difícil de tomar. Pesamos as possibilidades. Olhamos para um dos lados, avaliamos certo e errado. Olhamos para o outro lado, avaliamos direitos e deveres, e a dúvida não cede em um milímetro se quer. Ficamos paralisados, enquanto outras pessoas passariam como um trator sobre tudo e todos que estivessem obstáculizando sua trajetória de sucesso.

Dizem que essas pessoas que pensam nos outros, são indecisas. Eu creio que são sensíveis. Talvez até, sensíveis demais para os padrões de normalidade.

O mundo está no estado de desumanidade atual, graças exatamente à falta de empatia. Ninguém consegue se colocar no lugar do outro. Não é estranho que os empáticos sejam considerados lunáticos totais. 

Para a maioria das pessoas, os outros são os outros. Que lhes importa seu bem estar? Se está bom pra mim, o outro que se lixe! Tenho que pensar primeiro em mim, depois, nos meus. Que me importam os outros? Se os outros tivessem a oportunidade, também não pensariam em mim... e por aí vai a humanidade!

Pensar diferente, chega a ser agressivo. As pessoas acham que você é portador de algum deficit de raciocínio lógico! Fulano de tal é um boca aberta Idiota! E até aí percebemos, a nítida dificuldade humana, de empatizar. 

E você? Já tentou ver o mundo pelos olhos do seu irmão? Tente! Talvez você perceba que tem mais a agradecer, que a pedir!

Bom dia!

Por Cris Vaccarezza 

Reencontro às escuras

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Sabe, amor?
Embora você seja a encarnação do praticamente impossível,
embora você seja exatamente o extremamente improvável.
Embora você, e somente você,
seja o meu sonho tão sonhado.
Aliás, além do sonhado (e já realizado),
Embora tão etéreo, subjetivo,
seja tão materializado.
Embora tudo mais que possam argumentar...
Inclusive, embora, a qualquer hora, como todo louco amor,
você possa algum dia resolver ir embora...
Eu sempre acreditei em você!

Muito, mas muito embora me dissessem
que isso tudo o que eu achava ser o ideal em uma relação,
não passasse de utopia, de ilusão.
Muito embora eu ouvisse desde o berço
que os homens são cruéis
desde o começo,
e não prestam mais que pra criar a dor.
Muito embora eu visse milhões de coisas
que enchiam meu coração de descrédito.
Eu jamais deixei de acreditar em sua existência.

E eis que num dia qualquer de Abril,
num desses Outonos improváveis,
meu caminho cruzou o seu,
e meus dias se encheram de sorrisos incontáveis.
Dizem, que quando chega a hora,
não há nada que adie.
Não há porém, não há embora.
Dizem que uma alma se reconhece em outra.
E eu me reconheci em você!
E fui me reconhecendo ao longo dos meses, até me encontrar!

Agora, voltando ao passado,
vejo que você já estava ali,latente em mim.
Como a árvore gigantesca que pulsa e viceja
no interior da minúscula semente.
Hoje eu vejo, que sem te conhecer, já te desenhava!
Hoje eu sei, que de algum maneira,
sem nunca ter te visto antes, já te aguardava!

Obrigada por vir, meu amor!
Te amo mais e mais a cada dia!

Por: Cris Vaccarezza
Para: Cris Amarante


Fim de semana

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Respiro hoje, entre a saudade de te ver tão longe e a certeza de que mesmo longe, algo nos traz seguros um ao outro. Grudadinhos.

É nosso segundo final de semana separados. O segundo de 33. Sempre tivemos os finais de semana para dar uma pausa nas agendas agitadas e ficar...

Ficar jiboiando, cuidando do jardim, viajando, namorando, amando, cozinhando, dançando, assistindo TV, ajeitando isso ninho, ou simplesmente, curtindo a presença um do outro. Sempre tivemos esse tempo pra nós. Mas agora, embora sós, estamos distantes, e não como antes, doravante terá que ser assim, vez em quando. Se quisermos ser só um. Quando em vez, haveremos de ser metade, em nome da sociedade, do trabalho, do porvir.

Até então, sempre tivemos nosso próprio tempo. Ou nosso intervalo de tempo até 

que a segunda nos separe, ou nos una mais uma vez. Mas os finais de semana... Ah! Os finais de semana sempre foram nosso refúgio. Do estresse, da inflação, da encheção do dia a dia, da rotina, do mi-mi-mi, das incertezas. Os finais de semana sempre foram uma certeza. Mas havia uma barreira entre nós. Ou melhor, Barreiras... sua maior rota. A maior distância entre dois pontos. Quase 700 quilômetros entre minha mão e a tua, e ainda te sinto do meu lado...

Saudade, amor!! Saudade do teu cheiro de amor! Saudade do teu olho de mel, saudade do teu carinho, da tua presença aqui.

Vai, amor! Seguir sua rota, seu destino! Mas volta, pra casa, pra junto, pra perto de mim! Vem ser chegada, calor, braço forte. Vem ser morada do meu aconchego, vem ser palavra carinhosa e amiga, vem ser abrigo pro sono e pro meu despertar!

Te amo completo, inteiro, distante. Te amo constante, onde quer que vá! Te quero meu rei, meu parceiro, meu tudo. Te quero maduro e assim vou te amar.

Te quero exata, domada, insegura. Te quero candura e também rigidez . Te quero meu homem, amado, amigo. 

Te quero comigo, pra sempre, antes, durante e  depois!!

Por: Cris Vaccarezza

Para: Cris Amarante


Dois... Um

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Nosso amor não começou quente, como uma cena de novela.
Nosso amor começou frio como a tela de um smartphone.
Nosso amor começou de um dueto.
Começou de dois mundos e de uma vontade.
Começou pequeno, cerca de sete polegadas de uma foto.
Seu olho, meu olho. Um brilho, um huuuuuum!
Depois veio um oi, outro oi. Dois sininhos.
Um papo que durou quase uma noite.
Poderia não ter durado, eu poderia estar ocupada, ou você atarefado.
Mas durou.
Duas semanas de papos eventuais, silêncios, conversas.
Um tímido? Dois tímidos? Duas curiosidades!
Uma micareta. Uma reserva à distância. Duas ansiedades.
Uma distancia vencida. Dois corpos postos frente à frente.
Dois dispostos a serem só um. Um compromisso.
Cartas na mesa. Olhos nos olhos.
E de repente duas mãos, quatro mãos, uma mão sobre outra e um choque!
... Ei! Que susto! Tocou a mão? Foi mais além. Aqueceu um coração. Ou dois!
Dois nomes, dois carros, duas vidas, uma coincidência.
Nosso amor saiu da virtualidade, passou pela originalidade
e aportou no mar de coisas em comum.
Nosso amor era de dois, passou a ser de cinco, de sete, de dezessete.
E hoje é uma família que comporta quantos mais vier.
Nosso amor não começou gigante.
Começou do tamanho da tela de um smartphone
e ganhou os mares de Salvador, Ilhéus, de Itacaré, de Sauípe
Nosso amor começou na terra sulcada das dores sofridas
No chão batido da desconfiança madura. No não da dúvida.
Mas arrancou as raízes do nosso juízo e nos colocou face a face com a superlua.
Nosso amor não é comum. Como cada amor é único.
O meu é seu, e o seu é meu e isso basta!
Já não sou metade, também não me sinto apenas um inteiro.
Sinto que sou o dobro em você.
Te amo imensamente como a lua que refletindo o dourado de seu sol,
prateia a noite em um radioso dia.
De: Cris Vaccarezza
Para: Cris Amarante

Inércia

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Julgava ter esquecido os doces dias de sua infância, quando sonhava correr livre pelos campos, pés no chão, cabeça nas nuvens, cabelos ao vento. Julgava tê-los esquecido. Mas não!

Julgava ter paciência com as coisas de seu passado. Quem dera... seu coração rancoroso, era duro como pedra.

Julgava que era pra ser, mas percebia emudecida que o que era pra ter sido, infelizmente, não era.

Era, isto sim, uma promessa não cumprida, uma esperança perdida, um futuro desperdiçado. 

"Poderia ter ido tão longe, diziam, se não tivesse desistido!"

Eu não desisti! Gritava de si para si mesma, cortaram-me as asas!

"Não importa!" Repetiam em coro. Realmente, não importa mais... 

Queria ter encontrado o tão sonhado caminho dourado através do vale encantado da desilusão. Mas não! Travara ainda no início da jornada. 

Travara de medo, travara de ansiedade. Travara, empacara, desistira. E para o coral de acusadores, para a assembleia de incautos, que nada faz além de julgar, falhara.

Queria ser tolerante com eles. Queria ser tolerante consigo, mas nunca tivera personalidade forte. E o coro dos descontentes vencia o silêncio interior de sua permissividade.

Foi ficando, foi ficando... e de tanto não ir, criou raízes e fez-se árvore. A observar do alto da colina, todo o imenso vale, que seus pés adorariam te explorado.

Por Cris Vaccarezza

Seu jardim

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Estivera tão feliz em Passárgada, onde era amiga do Rei, que imaginara jamais precisasse retornar e sentar-se outra vez à sombra do Cipreste.
Mas lá estava, depois de tanto tempo, perdida em meio a sentimentos conflitantes e a dúvidas infinitas. Lá estava outra vez, de frente com a própria solidão.
Estava de volta ao jardim, para meditar, sozinha. 

Percebeu que passou-se tempo, sem que desse ouvidos àquele silêncio de grilos que cantam, àquela paz de ouvir estrelas cadentes.

Percebeu que por pouco, não perderá a sua fé. Mas sua fé, jamais a perdera. Estivera todo tempo na sebe, sob as franjas da trepadeira florida, ao alcance do jasmim da vovó, nas reminiscências da infância e na certeza de sempre haver um Porto Seguro, só seu, para retornar enfim, quando cansada da lida.

Estava em casa, em sua morada, em seu jardim, e ali, estava certa de que nada lhe poderia entristecer.

Morada é onde hospedas a tua alma, morada é onde quer que construas o teu próprio jardim. Seu jardim era ali. Jamais seria em outro lugar.

Por Cris Vaccarezza

Que venha!

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Ó vida de minha vida,
alma de minha alma,
carne que na minha se encrava
amor que enche minha alma de luz!

Vem verdejar seus dias
na esperança pueril
que em meu peito fez brotar

vem dessedentar tua sede
no veio de água pura
que mareja de felicidade o meu olhar

vem repousar teu rosto cansado
de homem devotado e trabalhador
em meu peito saudoso
que ansioso já espera a sua volta

vem ser meu companheiro
nesses dias de jornada
vem ser minha estrada
vem caminhar comigo
vem, meu amor!

Vem e vamos juntos, para sempre,
mão na mao!
Por Cris Vaccarezza

Sobre diamantes e seres humanos

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Sobre diamantes e seres humanos, temos ouvido muitas coisas. Sobre os primeiros, diz-se que seriam eternos. E o são, se comparados aos humanos, que duram sobre a terra um século, mais ou menos. Ainda assim, seres humanos são capazes, tanto de arriscar a própria vida curta, quanto de ceifar vidas alheias, pela sensação efêmera de ser o dono dessa eternidade material dos diamantes.
Ao contrário dos diamantes, extremamente raros e valiosos, costuma-se dizer que os seres humanos estão cada vez mais comuns e ordinários. Os diamantes pertencem ao reino mineral, inanimados, os seres humanos, ao animal. E diz-se ainda, que deveriam ser o topo da cadeia evolutiva, os líderes das demais espécies, embora pareça, que são os únicos de seu reino, a destruir o próprio habitat. Essas seriam apenas algumas das inúmeras diferenças entre diamantes e seres humanos. Mas e quanto às semelhanças?
Visto de forma mais ampla, não seríamos nós, os diamantes divinos?  Deus nos criou, assim como aos diamantes, simples e ignorantes, pedra bruta. Quando pensamos em um diamante, somos levados à imagem de uma pedra linda, lapidada, multifacetada, e extremamente brilhante. O diamante é um cristal que refrata a luz, separando-a nas cores do arco íris. Mas isso não é obra da natureza, é a arte da lapidação. Um diamante bruto, dificilmente seria diferenciado por leigos de uma pedra de quartzo qualquer. Ninguém espere topar por aí com um diamante lapidado, desses que vemos nas vitrines das joalherias. Ao contemplá-los, ficamos tão bestificados com seu brilho e beleza, que sequer nos damos conta de pensar em como ficaram daquela forma de brilhante. Como a pedra bruta tornou-se uma joia rara.
Um diamante é um cristal cuja composição química é idêntica à do grafite comum desses que colocamos nos lápis para escrever: carbono. A diferença entre os dois, é a forma geométrica que os átomos de carbono tomam entre si. A grosso modo, foi a pressão e a temperatura a que foram submetidos em sua formação que determina quem será grafite e quem será diamante. Enquanto o grafite ou grafita é um mineral superficial, diamantes são formados nas camadas mais profundas da terra, onde a temperatura e a pressão atmosférica são muito elevadas, e vem à tona através de erupções vulcânicas.
Para que adquira a forma de brilhante, capaz de decompor a luz branca nas cores do arco-íris, um diamante bruto precisa ser lapidado. Lapidação é o processo pelo qual uma gema é cortada, serrada é quebrada em seus pontos mais fracos, para que se formem as facetas que a revelarão um brilhante. Essa não é uma tarefa das mais fáceis, já que o diamante é o mineral mais duro encontrado na natureza. Seu nome vem do grego diamas, uma alteração de adamas, indomável. Diz-se que como o diamante era uma pedra que não podia ser cortada por nenhuma outra, os gregos diziam que era "indomável".
Eis o desafio, como cortar uma pedra indomável?! Se um diamante bruto não reluz, como transformá-lo num brilhante? Como trabalhá-lo? Como lapidá-lo, para que dele se extraia o melhor de seu valor?
Como descobriram os gregos, nenhuma outra pedra era capaz de cortá-la. Exceto outro diamante. Na natureza, apenas um diamante é capaz de cortar outro. São os chamados diamantes cortadores. Através de um processo conhecido como clivagem, uma fina ranhura é produzida a pancadas no diamante bruto, usando outro diamante em seus pontos fracos. No desbaste, outro diamante é esfregado ao primeiro, para com o atrito, dar um acabamento rudimentar à borda exterior da pedra. Por fim, no polimento, a pedra é colocada em uma roda giratória revestida com pó de diamante para alisá-lo.
E assim, durante todo o processo artesanal de lapidação da pedra, são usados outros diamantes para dela extrair seu máximo brilho. A pedra bruta é cortada, polida, facetada, até chegar ao brilhante. Nesse processo, muito se sua estrutura é perdida, as partes menos perfeitas da estrutura são desprezadas, o todo é clivado. Desde o seu processo de formação nas entranhas da terra, sob pressão e temperatura extremas, até o brilhante final, poder-se-ia dizer de forma figurada, que um diamante sofreu muito para extrair de dentro de si, a pedra preciosa.
Assim também são os seres humanos. Pedras brutas que somos, corações empedernidos que temos, amores engessados, perdões negados, almas embrutecidas, sentimentos endurecidos, vidas que nada vale para o próximo, mas de um valor inestimável para o Criador. Então, como extrair de nós, a luz dos sentimentos mais puros e elevados? Através da lapidação divina. Nós somos os diamantes de Deus. E para lapidar-nos, a vida usa exatamente outros diamantes como nós. Igualmente endurecidos e cortantes. Dessa maneira, fica mais fácil compreender quando alguém nos fere, nos diz palavras duras e ofensivas, quando alguém nos machuca, está na verdade evidenciando as impurezas e imperfeições que existem em nossa pedra bruta.
As vicissitudes da vida, nada mais são, que um processo de burilamento, de polimento da nossa alma, livrando-nos do orgulho, só egoísmo, do ódio, da raiva, do ressentimento. Tornando-nos pessoas mais tolerantes, pacíficas, altruístas e humildes. Afinal, somos tão falhos, que vistos de perto, de que temos que nos orgulhar? Erramos tanto com os outros, porque não aceitar que os outros também são passíveis de erro? Sentimos tanto as nossas dores, porque não ser compassivo com a dor do próximo? Como perceber que não somos joia rara, se não pararmos de apontar os erros dos outros e observarmos o nosso próprio grau de impureza e atraso? Não é fácil. Apenas outro diamante para cortar um diamante. Apenas outro ser humano, através das incontáveis relações que travamos na vida, para que nos aperfeiçoemos enquanto pessoas.
Não somos melhores que ninguém! Somos todos diamantes. Alguns em fase de polimento diferente. Uns mais brutos, outros mais límpidos, uns mais enfurecidos, outros mais puros, mas todos num processo que nos conduzirá à luz. Que nos permitamos chegar um dia, ao nosso brilho real.
Por Cris Vaccarezza
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